A curva de aprendizado digital redefine a gestão de custos e a retenção de talentos na hotelaria
A adaptação tecnológica de profissionais veteranos ilustra a urgência de investir em capacitação contínua para mitigar riscos operacionais, otimizar o night audit e sustentar a margem GOPPAR em um setor com alta rotatividade.

A narrativa de superação individual que ganhou destaque recente, centrada na trajetória de uma profissional que reiniciou sua jornada acadêmica aos 60 anos e dominou ferramentas digitais aos 81, transcende o caráter humanístico para se tornar um estudo de caso relevante para a gestão de recursos humanos e operações no setor hoteleiro brasileiro. No contexto atual, marcado por uma escassez estrutural de mão de obra e pela aceleração digital forçada pela pandemia, a capacidade de adaptação tecnológica dos colaboradores, independentemente da faixa etária, tornou-se um determinante crítico para a eficiência operacional. Para controllers e gerentes financeiros, isso não é apenas uma questão de inclusão social, mas um imperativo estratégico para a preservação da margem bruta (GOPPAR) e a redução de erros de auditoria noturna, que impactam diretamente a precisão dos dados de receita.
O setor de hospitalidade no Brasil enfrenta um paradoxo: a necessidade de modernização tecnológica colide com a resistência ou a dificuldade de adaptação de parte da base operacional, especialmente entre profissionais com mais tempo de casa. A história citada, veiculada por veículos de comunicação generalistas, serve como um espelho para a realidade das recepções e controladorias hoteleiras. Se uma pessoa na oitava década de vida pode aprender a navegar em plataformas de educação a distância e utilizar e-mails para fins acadêmicos, a barreira para a adoção de Property Management Systems (PMS) modernos, módulos de revenue management e ferramentas de análise de dados por parte de night auditors e recepcionistas experientes deve ser tratada como um desafio de treinamento, não de incapacidade cognitiva.
A lacuna digital na operação diária
A transição para o digital não é linear nem isenta de custos. Para a controladoria hoteleira, o erro humano na digitação de tarifas, na aplicação de descontos ou na reconciliação de contas de grupo continua sendo uma das principais fontes de variação negativa no RevPAR (Receita por Quarto Disponível). Quando um colaborador mais velho, que pode ter décadas de experiência em atendimento ao hóspede, é introduzido a um novo sistema sem o devido suporte pedagógico, o risco de falhas operacionais aumenta exponencialmente. A curva de aprendizado, portanto, deve ser gerenciada ativamente pela gestão, incorporando custos de treinamento e tempo de produtividade reduzida nas projeções financeiras do ano.
Historicamente, a hotelaria brasileira operou com sistemas legados e processos manuais que permitiam uma certa tolerância a erros, desde que corrigidos em tempo hábil. Hoje, a integração entre PMS, Channel Managers e sistemas de Business Intelligence exige precisão milimétrica. Um erro no night audit pode distorcer os dados de ocupação e ADR (Preço Médio Diário) para o revenue manager, levando a decisões de precificação subótimas. A adaptação tecnológica, portanto, é um pilar da governança de dados. A narrativa da profissional que aprendeu tecnologia aos 81 anos reforça que a plasticidade cerebral e a vontade de aprender estão presentes, mas exigem metodologias de ensino adequadas, com paciência e repetição, algo que muitas corporações hoteleiras negligenciam em prol da velocidade de onboarding.
O custo de oportunidade de não investir nessa capacitação é alto. A rotatividade de funcionários (turnover) no setor hoteleiro brasileiro é cronicamente elevada, frequentemente superando 30% ao ano em categorias operacionais. Contratar e treinar novos colaboradores é significativamente mais caro do que reter e capacitar os existentes. A experiência institucional, o conhecimento tácito sobre a operação local e a estabilidade emocional que profissionais veteranos trazem são ativos intangíveis valiosos. Perder esses talentos por falta de adaptação tecnológica é um desperdício de capital humano que afeta diretamente o EBITDA. A gestão financeira deve, portanto, tratar o treinamento digital não como um custo de pessoal, mas como um investimento em eficiência operacional e redução de riscos.
Implicações para o Night Audit e a Controladoria
O night auditor é o guardião da integridade dos dados financeiros diários do hotel. Sua função vai além da contabilidade básica; envolve a reconciliação de todas as transações, a verificação de tarifas aplicadas e a geração de relatórios que alimentam as decisões estratégicas da receita. A complexidade dos sistemas atuais exige que o auditor tenha familiaridade com interfaces digitais, dashboards e, muitas vezes, com a resolução de problemas técnicos básicos. A resistência ou a dificuldade em lidar com essas ferramentas pode criar gargalos no fechamento do dia, atrasando a disponibilidade de dados para o revenue manager e a gerência.
A adaptação tecnológica dos night auditors mais experientes é, portanto, uma prioridade para a controladoria. Isso envolve não apenas o treinamento no uso do software, mas também o desenvolvimento de uma mentalidade analítica. O auditor precisa entender o "porquê" por trás dos números, não apenas o "como" de registrá-los. A narrativa da profissional que voltou aos estudos ilustra a importância da educação contínua. Da mesma forma, os hotéis devem investir em programas de upskilling e reskilling para suas equipes financeiras e operacionais, garantindo que todos estejam alinhados com as exigências do mercado digital.
Além disso, a segurança da informação é uma preocupação crescente. Colaboradores que não estão confortáveis com a tecnologia podem ser mais vulneráveis a ataques de phishing ou a erros de manuseio de dados sensíveis. A capacitação digital deve incluir módulos de cibersegurança, ensinando os funcionários a identificar ameaças e a seguir protocolos de proteção de dados. Isso é crucial para a conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e para a proteção da reputação do hotel. A gestão de riscos financeiros deve considerar a competência digital da equipe como um fator chave na avaliação de vulnerabilidades operacionais.
O papel do Revenue Management e da Distribuição
O revenue management moderno é uma disciplina baseada em dados. Os revenue managers dependem de informações precisas e em tempo real para ajustar preços, controlar a disponibilidade e otimizar a mixagem de canais. Se a equipe de reservas e recepção não estiver capacitada para utilizar as ferramentas de distribuição e gestão de tarifas de forma eficaz, a estratégia de receita fica comprometida. Erros na aplicação de tarifas, na atualização de inventário ou na comunicação com os OTAs (Online Travel Agencies) podem resultar em perda de receita ou em multas por não conformidade.
A integração entre a operação e o revenue management é essencial. Os revenue managers precisam confiar nos dados gerados pela operação, e a operação precisa entender as diretrizes de receita. A capacitação tecnológica facilita essa comunicação, permitindo que todos os envolvidos compreendam os objetivos e as métricas de desempenho. A narrativa da profissional que aprendeu tecnologia aos 81 anos serve como um lembrete de que a capacidade de aprender não tem idade. Se um colaborador mais velho pode dominar ferramentas digitais para fins acadêmicos, ele pode certamente aprender a utilizar sistemas de revenue management para melhorar a performance do hotel.
A distribuição digital também exige uma nova postura. Os hotéis estão cada vez mais dependentes de canais online para vender suas reservas. A gestão desses canais requer conhecimento técnico sobre APIs, feeds de conteúdo e estratégias de SEO. A equipe de vendas e marketing, muitas vezes composta por profissionais de diferentes idades, precisa estar alinhada com essas exigências. A resistência à mudança ou a falta de habilidades digitais pode limitar a eficácia das estratégias de distribuição, resultando em menor visibilidade e menor conversão de vendas. A gestão deve, portanto, investir em capacitação contínua para toda a equipe comercial, garantindo que todos estejam preparados para o ambiente digital.
Riscos, contrapontos e o horizonte futuro
Apesar dos benefícios, a capacitação digital não é uma solução mágica. Existem riscos associados, como a sobrecarga de trabalho, a frustração dos colaboradores e a possível resistência cultural. A gestão deve abordar esses riscos com sensibilidade, oferecendo suporte psicológico e técnico, e criando um ambiente de aprendizado seguro, onde os erros sejam vistos como oportunidades de crescimento. A pressão por resultados não deve comprometer a qualidade do treinamento.
Além disso, é importante reconhecer que nem todos os colaboradores terão a mesma facilidade ou vontade de aprender novas tecnologias. Alguns podem preferir funções mais tradicionais ou podem ter limitações físicas ou cognitivas que dificultam a adaptação. A gestão deve ser inclusiva, oferecendo alternativas e acomodações razoáveis, e evitando a discriminação com base na idade ou nas habilidades digitais. A diversidade de habilidades e experiências é um ativo para o hotel, e a gestão deve saber aproveitar essa diversidade.
Olhando para o futuro, a tendência é de uma aceleração ainda maior da digitalização no setor hoteleiro. A inteligência artificial, a automação de processos e a análise preditiva de dados serão cada vez mais comuns. Os hotéis que investirem hoje na capacitação digital de suas equipes estarão melhor posicionados para aproveitar essas oportunidades e para competir em um mercado cada vez mais exigente. A narrativa da profissional que reiniciou sua vida acadêmica aos 60 anos é um símbolo de esperança e de resiliência. Ela nos lembra que nunca é tarde para aprender e que a educação contínua é a chave para o sucesso em um mundo em constante mudança. Para a hotelaria brasileira, isso significa que a gestão de talentos deve evoluir de um modelo baseado em contratação e turnover para um modelo baseado em retenção, desenvolvimento e capacitação contínua. O investimento em pessoas é o investimento mais seguro e com maior retorno a longo prazo.
A observação do cenário internacional confirma essa tendência. Hotéis em mercados maduros, como os EUA e a Europa, já estão investindo pesadamente em programas de upskilling para lidar com a escassez de mão de obra e a transformação digital. O Brasil, com seu potencial de crescimento e sua força de trabalho jovem, mas também com uma parcela significativa de profissionais experientes, tem a oportunidade de liderar essa mudança na América Latina. A chave será a colaboração entre as empresas, as instituições de ensino e o governo para criar ecossistemas de aprendizado que atendam às necessidades do setor. A história de Marlene Vicente, embora individual, reflete uma necessidade coletiva: a de um setor hoteleiro mais adaptável, mais inclusivo e mais preparado para os desafios do futuro digital.
Mark
Editor responsável · Redação
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Editor responsável · Redação
Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.