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A onda de formalização e o desafio da governança hoteleira em um mercado fragmentado

Com a expansão do empreendedorismo formal no Brasil, a hotelaria enfrenta a dualidade entre a profissionalização da gestão financeira e a pressão de novos players informais que distorcem a percepção de preço e ocupação.

Redação The Contáveis.7 min de leitura
A onda de formalização e o desafio da governança hoteleira em um mercado fragmentado

A paisagem do empreendedorismo brasileiro atravessa uma transformação estrutural silenciosa, mas de impacto profundo nas operações de back-of-house. Dados recentes indicam que o número de negócios formalizados cresceu significativamente na última década, enquanto a informalidade, embora ainda volumosa, expandiu-se a um ritmo muito mais lento. Para o setor de hotelaria, essa dinâmica não é apenas uma estatística macroeconômica; ela redefine o ecossistema competitivo, a qualidade dos dados de mercado e as estratégias de receita. A formalização tende a trazer consigo a adoção de padrões contábeis mais rígidos, o que, em tese, deveria facilitar a análise de desempenho setorial, mas na prática revela uma fragmentação complexa que desafia os controllers e revenue managers.

O aumento expressivo de empresas com CNPJ ativo sugere uma maturização do mercado, onde a abertura de negócios deixa de ser apenas uma questão de sobrevivência imediata para se tornar uma estratégia de longo prazo. No contexto hoteleiro, isso se reflete na profissionalização de pousadas familiares e pequenos hotéis que, ao se formalizarem, começam a integrar-se aos sistemas de distribuição global (GDS) e às plataformas de reserva online (OTAs). Contudo, a persistência de um grande contingente de empreendimentos informais cria um paralelo distorcido. Esses players, frequentemente operando sem estabelecimento fixo ou com estruturas mínimas, oferecem preços que não incorporam custos de compliance, previdência ou impostos, exercendo uma pressão descendente sobre o ADR (Preço Médio Diário) do setor.

A assimetria informacional e o PMS

Para o night auditor e o controlador, a coexistência de um mercado formal robusto com uma base informal resiliente gera um problema de integridade dos dados. As ferramentas de análise de mercado, como as fornecidas pela STR ou pela própria associação local, dependem de amostras que, historicamente, tendem a capturar melhor o segmento formal. Quando uma parcela significativa da oferta hoteleira e de alojamento temporário opera à margem, os indicadores de ocupação do mercado (market penetration) podem subestimar a oferta real, levando a uma superestimação do RevPAR (Receita por Quarto Disponível) potencial. Isso distorce a base de comparação (comp set) utilizada pelos revenue managers para definir tarifas dinâmicas.

A formalização também implica na adoção de Property Management Systems (PMS) mais sofisticados. Enquanto o empreendedor informal pode gerenciar reservas via planilhas ou cadernos, o negócio formal exige rastreabilidade fiscal e controle de caixa rigoroso. Essa transição tecnológica é crucial para a padronização dos dados, mas também introduz novos custos operacionais. A gestão de receitas, que antes era intuitiva e baseada na experiência local, passa a exigir modelos preditivos que considerem a sazonalidade e a elasticidade de preço. Para o gerente financeiro, a migração para o formal significa a necessidade de conciliar as receitas reportadas pelo PMS com as obrigações fiscais, um processo que exige auditoria interna constante para evitar divergências que possam comprometer a saúde financeira do ativo.

A questão da previdência social e dos custos de pessoal emerge como um dos maiores desafios de governança. No setor informal, a ausência de contribuições previdenciárias reduz drasticamente o custo direto da mão de obra, permitindo margens de lucro que os hotéis formais não conseguem replicar sem comprometer sua sustentabilidade. Para a hotelaria brasileira, que é intensiva em mão de obra, essa disparidade cria um ambiente competitivo desleal. Os controllers precisam, portanto, focar na otimização de outros custos operacionais, como energia, compras e manutenção, para compensar a desvantagem estrutural nos custos de pessoal. A eficiência operacional deixa de ser um luxo para se tornar uma necessidade de sobrevivência.

Comparativo de Formalização de Empreendimentos (2015-2025)
Tipo de NegócioQuantidade (2015)Quantidade (2025)Crescimento (%)
Formais (com CNPJ)7,45 milhões10,5 milhões41%
Informais (sem CNPJ)18,6 milhões19,7 milhões6%
Participação Formal no Total28,5%34,7%+6,2 pp

A consolidação do empreendedorismo de oportunidade

A mudança no perfil do empreendedor, de alguém que abre um negócio por necessidade para um que o faz por oportunidade, tem implicações diretas na qualidade do serviço e na gestão de riscos. Empreendedores que veem o hotel como uma oportunidade de investimento tendem a buscar retornos mais rápidos e a adotar práticas de gestão mais agressivas. Isso pode levar a uma rotatividade maior de propriedades no mercado, com aberturas e fechamentos rápidos que perturbam a estabilidade da oferta. Para os investidores e fundos de hotelaria, isso significa que a due diligence deve incluir uma análise profunda da governança e da sustentabilidade do modelo de negócios, indo além dos números de curto prazo.

A permanência dos empreendedores no negócio, que tende a ser maior entre os formalizados, sugere uma maior resiliência e planejamento de longo prazo. No setor hoteleiro, isso se traduz em uma maior disposição para investir em capital (CAPEX) para renovação de quartos, tecnologia e sustentabilidade. Hotéis que se mantêm no mercado por mais tempo conseguem construir uma base de clientes leais e uma reputação sólida, fatores que são difíceis de replicar para os operadores informais que mudam de endereço ou encerram atividades rapidamente. Para o revenue manager, a estabilidade da oferta permite uma previsão de demanda mais precisa e a construção de estratégias de fidelização mais eficazes.

A diversificação do perfil dos empreendedores, incluindo a participação crescente de grupos demográficos historicamente sub-representados, também traz novas perspectivas para o mercado. A entrada de novos players pode levar à inovação em nichos específicos, como ecoturismo, hospedagem temática ou serviços personalizados. Para a hotelaria tradicional, isso representa tanto uma ameaça quanto uma oportunidade de parceria. A colaboração com esses novos empreendedores, através de redes de distribuição ou programas de afiliados, pode expandir a base de clientes e diversificar as fontes de receita. No entanto, a integração desses players exige flexibilidade nos contratos e uma compreensão profunda das suas limitações operacionais.

Riscos regulatórios e a pressão fiscal

A formalização em massa também atrai a atenção dos órgãos reguladores e fiscais. Com mais empresas no radar, a fiscalização tende a se intensificar, o que pode aumentar a carga tributária efetiva para o setor. Para os controllers, isso significa a necessidade de uma gestão tributária mais ativa, buscando incentivos fiscais e benefícios locais que possam mitigar o impacto dos impostos. A complexidade do sistema tributário brasileiro, já conhecida por sua burocracia, pode se tornar um gargalo para a expansão de pequenas e médias propriedades hoteleiras. A simplificação dos processos e a redução da carga tributária são, portanto, demandas urgentes para o setor.

Além disso, a formalização exige transparência nas operações, o que pode expor práticas informais anteriormente toleradas, como a subfaturação de serviços ou a contratação irregular de mão de obra. Para as redes hoteleiras, a conformidade regulatória é uma questão de reputação e risco legal. A padronização dos processos e a auditoria contínua são essenciais para garantir que todas as unidades estejam em conformidade com as leis trabalhistas e fiscais. A falha nisso pode resultar em multas pesadas e danos à imagem da marca, que são difíceis de reparar.

A comparação internacional oferece um espelho interessante para a situação brasileira. Em mercados mais maduros, como os Estados Unidos ou a Europa Ocidental, a formalização é a norma, e a competição se dá principalmente na qualidade do serviço, na localização e na eficiência operacional. A existência de um setor informal significativo no Brasil cria uma distorção que não é comum nesses mercados. A convergência para um modelo mais formalizado, embora lenta, é inevitável e trará consigo uma maior profissionalização do setor, mas também uma consolidação do mercado, com a saída dos players menos eficientes.

O que observar adiante é a capacidade do setor de absorver essa transição sem perder competitividade. A hotelaria brasileira precisa investir em tecnologia, capacitação de pessoal e eficiência operacional para competir em um mercado onde a pressão de preços é intensa. A colaboração entre os players formais, através de associações e redes de distribuição, pode fortalecer a posição do setor e promover um ambiente de negócios mais justo. Para os controllers e gerentes financeiros, o desafio é equilibrar a conformidade regulatória com a necessidade de manter margens saudáveis e investir no crescimento do negócio.

A formalização não é apenas uma questão legal; é uma questão de estratégia de negócios. Empresas que abraçam a transparência e a governança corporativa tendem a atrair investidores, talentos e clientes de maior valor. No longo prazo, a profissionalização do setor hoteleiro brasileiro é essencial para sua integração em mercados globais e para a atração de investimentos estrangeiros. A jornada para a formalização é árdua, mas é o caminho para a sustentabilidade e o crescimento do setor.

Os dados sugerem que o empreendedorismo se consolidou como uma atividade de longo prazo, com a maioria dos empreendedores permanecendo no negócio por mais de dois anos. Essa estabilidade é um indicador positivo para o setor, sugerindo que os novos players estão comprometidos com o sucesso de suas operações. Para a hotelaria, isso significa que a base de concorrência é mais estável do que antes, permitindo planejamento de longo prazo e investimentos em infraestrutura. No entanto, a persistência da informalidade entre certos grupos demográficos e a falta de contribuição previdenciária continuam sendo desafios estruturais que precisam ser abordados por políticas públicas e iniciativas do setor.

Em suma, a expansão do empreendedorismo formal no Brasil representa uma oportunidade para a hotelaria se profissionalizar e competir em um nível mais alto. Mas exige adaptação, investimento e uma visão clara dos riscos e oportunidades em um mercado em rápida transformação. A governança financeira e a gestão de receita devem ser reavaliadas à luz desse novo contexto, garantindo que as propriedades estejam preparadas para os desafios futuros.

Vídeo relacionado ao tema — YouTube

Fonte:diariodocomercio.com.brler notícia original.

Transparência editorial: reportagem produzida pela redação da The Contáveis. com apoio de ferramentas de inteligência artificial na sumarização e redação, e revisada editorialmente antes da publicação. O ângulo, a seleção de dados e o enquadramento para back-of-house hoteleiro são originais desta redação; todo material factual é atribuído à fonte primária citada acima. Encontrou um erro? Peça uma correção.

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Editor responsável · Redação

Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.

224 matérias publicadasEsta matéria · 11 de setembro de 2026