Capital e cuidado: como o empreendedorismo feminino redefine a gestão hoteleira no Brasil
A liderança feminina no setor de hospitalidade cresce, mas a falta de acesso a crédito e a sobrecarga com cuidados limitam a expansão. Controladores e revenue managers precisam adaptar processos para capturar esse potencial.

O setor de hotelaria brasileiro vive uma transformação silenciosa, mas estrutural, impulsionada pela crescente presença de mulheres na liderança de propriedades independentes e grupos de médio porte. Embora os dados macroeconômicos apontem para uma recuperação robusta da ocupação e do RevPAR (Receita por Quarto Disponível) em diversos polos turísticos, a composição do capital e da gestão nas operações tem mudado de forma significativa. A narrativa tradicional, que associava a expansão agressiva de portfólios a fundos de investimento majoritariamente masculinos, está sendo desafiada por um novo perfil de empreendedoras que priorizam sustentabilidade operacional, gestão de pessoas e eficiência no GOPPAR (Ganho Operacional por Quarto Disponível). No entanto, como destacado recentemente por veículos especializados em economia, a jornada dessas líderes ainda é obstruída por barreiras sistêmicas, principalmente no que tange ao acesso a recursos financeiros e a redes de apoio estruturadas.
A dinâmica do back-of-house, ou seja, as operações internas que não são vistas pelo hóspede, reflete diretamente essas tensões. Para o controller e o night auditor, a realidade é que muitas propriedades lideradas por mulheres operam com margens apertadas e uma necessidade crítica de flexibilidade nos processos. Enquanto o mercado de luxo e os grandes corporates dispõem de departamentos jurídicos e financeiros robustos para negociar linhas de crédito e otimizar a carga tributária, as empreendedoras do segmento médio e boutique frequentemente dependem de capital próprio ou de linhas de microcrédito com juros elevados. Isso impacta diretamente a capacidade de investimento em tecnologia de gestão, sistemas de Property Management System (PMS) integrados e ferramentas de Revenue Management, criando uma assimetria competitiva que não é baseada apenas na qualidade do serviço, mas na eficiência financeira.
A equação do capital e a eficiência operacional
O acesso ao capital é, historicamente, o principal gargalo para a escala de negócios liderados por mulheres. No contexto hoteleiro, isso se traduz em dificuldades para realizar capex (despesas de capital) necessárias para a modernização de unidades, aquisição de novas propriedades ou expansão para novos mercados. Investidores-anjo e fundos de private equity, que tradicionalmente dominam o setor, muitas vezes aplicam critérios de avaliação de risco que penalizam negócios que não apresentam um histórico linear de crescimento agressivo ou que operam em nichos considerados "tradicionais", como hospedagem residencial ou pousadas familiares. Essa viés inconsciente, ou consciente, no mercado de capitais força muitas empreendedoras a buscar alternativas de financiamento que, embora acessíveis, não oferecem a alavancagem necessária para competir com grandes redes internacionais.
Para a controladoria hoteleira, isso implica uma gestão de fluxo de caixa extremamente conservadora. A falta de reserva financeira robusta torna a operação vulnerável a sazonalidades acentuadas, comuns no turismo brasileiro. O revenue manager, por sua vez, precisa trabalhar com um ADR (Preço Médio Diário) que não apenas cubra os custos variáveis, mas que também gere caixa suficiente para cobrir eventuais gaps de liquidez. A pressão por resultados de curto prazo, imposta pela escassez de capital de giro, pode levar a decisões de pricing subótimas, onde a maximização da ocupação em detrimento do preço médio compromete a rentabilidade a longo prazo. A integração entre a função financeira e a de receita é, portanto, não apenas uma boa prática, mas uma necessidade de sobrevivência para muitas dessas propriedades.
O custo invisível do cuidado na gestão hoteleira
Além das barreiras financeiras, há um fator humano e estrutural que impacta diretamente a produtividade e a retenção de talentos no setor: a economia do cuidado. Estudos indicam que uma parcela significativa das empreendedoras no Brasil empreende após a maternidade, buscando flexibilidade para conciliar vida profissional e familiar. No entanto, a indústria hoteleira, por sua natureza de operação 24 horas, sete dias por semana, é historicamente hostil a essa necessidade de flexibilidade. A ausência de redes de apoio, como creches corporativas ou parcerias com serviços de cuidado infantil, cria um custo oculto para a empresa, manifestado em rotatividade de pessoal, absenteísmo e sobrecarga nos períodos de pico.
Para o gerente financeiro, ignorar essa variável significa subestimar os custos indiretos de pessoal. A rotatividade alta no front-office e nas operações de housekeeping, por exemplo, aumenta os custos de recrutamento e treinamento, impactando diretamente o GOP. Além disso, a falta de políticas de apoio à maternidade e paternidade pode limitar o pool de talentos disponíveis, especialmente em regiões onde a mão de obra qualificada é escassa. A inovação na gestão de pessoas, portanto, não é apenas uma questão de responsabilidade social corporativa, mas uma estratégia financeira. Propriedades que implementam horários flexíveis, home office para funções administrativas e parcerias com serviços de cuidado tendem a ter maior retenção de talentos e, consequentemente, menores custos operacionais no longo prazo.
Inovação e distribuição: rompendo estereótipos
Há também a questão da inovação tecnológica e do acesso a mercados. Tradicionalmente, as mulheres têm sido sub-representadas em setores de alta tecnologia e inovação, concentrando-se em áreas como moda, beleza, alimentação e serviços. No setor hoteleiro, isso se reflete em uma menor presença em cargos de alta tecnologia, como análise de dados, inteligência artificial e desenvolvimento de plataformas de distribuição. No entanto, a barreira não é a capacidade de inovar, mas o acesso aos ambientes e ferramentas que permitem essa inovação. Sem acesso a plataformas de dados robustas e a redes de mentoria tecnológica, muitas empreendedoras perdem oportunidades de otimizar a distribuição e a comercialização de seus quartos.
A distribuição digital, com seu complexo ecossistema de OTAs (Online Travel Agencies), GDS (Global Distribution Systems) e canais diretos, exige uma compreensão profunda de algoritmos, taxas de comissão e estratégias de visibilidade. A falta de acesso a essa expertise pode resultar em uma dependência excessiva de canais terceirizados, que cobram comissões elevadas e reduzem a margem de lucro. Para o revenue manager, a chave é democratizar o acesso a essas ferramentas, através de parcerias com provedores de tecnologia que ofereçam soluções acessíveis e treinamento contínuo. A inovação, nesse contexto, não significa necessariamente adotar as últimas tendências de IA, mas sim utilizar dados de forma inteligente para tomar decisões de pricing e alocação de estoque mais precisas.
A comparação com mercados internacionais, como os Estados Unidos e a Europa, revela que o empreendedorismo feminino no setor de hospitalidade tende a ser mais resiliente em crises quando há suporte institucional e acesso a capital. Nos EUA, por exemplo, há um movimento crescente de fundos de investimento focados em diversidade, que buscam não apenas retorno financeiro, mas também impacto social. No Brasil, esse modelo ainda é incipiente, mas começa a ganhar tração. A diferença crucial, no entanto, está na maturidade dos mercados de dados e na cultura de investimento. Enquanto nos EUA a análise de dados é onipresente e integrada à tomada de decisão, no Brasil ainda há uma lacuna significativa, especialmente entre pequenas e médias propriedades.
Os riscos para o setor são claros: a perpetuação das desigualdades de gênero no acesso a recursos e oportunidades limita o potencial de crescimento da indústria como um todo. A falta de diversidade na liderança e na tomada de decisão pode levar a uma visão limitada do mercado, ignorando segmentos de clientes em crescimento e oportunidades de inovação. Além disso, a sobrecarga de trabalho não remunerado, como o cuidado familiar, continua a ser um obstáculo significativo para a progressão de carreira das mulheres no setor.
O que observar adiante é a evolução das políticas de inclusão e diversidade nas grandes redes hoteleiras e a emergência de novos modelos de negócio liderados por mulheres. A tendência é que, à medida que mais mulheres assumem cargos de liderança, haja uma pressão por mudanças estruturais, como políticas de licença-parental mais generosas, ambientes de trabalho mais flexíveis e investimentos em programas de mentoria e capacitação. Para o controller e o revenue manager, a lição é clara: a inclusão não é apenas uma questão ética, mas uma estratégia de negócios. A diversidade de pensamento e de experiência na liderança pode levar a decisões mais robustas, inovadoras e, ultimately, mais lucrativas.
A integração de perspectivas femininas na gestão hoteleira também tende a influenciar a cultura organizacional, promovendo um ambiente mais colaborativo e empático. Isso pode ter um impacto positivo na satisfação do cliente e na retenção de funcionários, dois fatores críticos para o sucesso a longo prazo no setor de hospitalidade. Além disso, a crescente conscientização sobre questões de gênero e diversidade está levando a uma maior demanda por práticas empresariais éticas e sustentáveis, o que pode abrir novas oportunidades de mercado para propriedades que adotam essas práticas.
Em suma, o empreendedorismo feminino no setor hoteleiro brasileiro está em um ponto de inflexão. Embora os desafios sejam significativos, as oportunidades são imensas. Para os profissionais do back-of-house, a chave é reconhecer e abordar essas desigualdades, não apenas como um problema social, mas como uma oportunidade de inovação e crescimento. A integração de práticas inclusivas na gestão financeira, de receita e de pessoas pode ser o diferencial competitivo que define o futuro do setor.
Mark
Editor responsável · Redação
Mark
Editor responsável · Redação
Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.