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Sustentabilidade

Clima altera precificação de seguros e impacta balanços da hotelaria

Com chuvas extremas projetadas para 66% do território, o gap entre perdas e cobertura de 9% força hotéis a revisarem políticas de capital e contingências operacionais.

Redação The Contáveis.6 min de leitura
Clima altera precificação de seguros e impacta balanços da hotelaria

A ascensão dos eventos climáticos extremos no Brasil deixa de ser uma variável externa para se tornar um componente estrutural na análise de risco financeiro do setor hoteleiro. Projeções recentes indicam que a maior parte do território nacional enfrentará um aumento significativo na frequência e na intensidade de chuvas concentradas em curtos períodos até o final da década de 2070. Para a controladoria e os gestores financeiros de hotéis, essa mudança na base de risco implica a necessidade de repensar a precificação de apólices, a alocação de capital para manutenção predial e a modelagem de cenários de receita que, historicamente, dependiam de padrões meteorológicos estáveis.

O impacto financeiro já se materializa nos balanços do mercado segurador. Em 2024, as indenizações pagas por eventos climáticos somaram bilhões de reais, representando uma parcela relevante do total de sinistros processados. Contudo, a análise revela um descompasso crítico: a cobertura efetiva das perdas econômicas provocadas por desastres naturais no país permanece em níveis baixos, em torno de um dígito percentual. Isso significa que a maior parte do prejuízo climático recai diretamente sobre o patrimônio dos proprietários e operadores, pressionando o fluxo de caixa e a capacidade de investimento em expansão ou modernização.

A erosão da base histórica de subscrição

Tradicionalmente, a precificação de seguros e a gestão de riscos corporativos baseiam-se em dados históricos de sinistros. No contexto brasileiro atual, essa abordagem torna-se obsoleta. A não estacionariedade do clima, onde os padrões do passado não garantem a repetição no futuro, exige que as empresas passem a incorporar modelos climáticos prospectivos em suas análises de risco. Para o setor hoteleiro, isso significa que a probabilidade de interrupção de operações por alagamentos, vendavais ou ondas de calor não é mais uma cauda distante da distribuição de probabilidades, mas um evento esperado em horizontes de planejamento de médio prazo.

A heterogeneidade regional agrava a complexidade. Enquanto o Sul do país enfrenta um aumento projetado nas chuvas extremas, outras regiões lidam com a intensificação de ondas de calor. Essa variação exige uma granularidade na gestão de riscos que vai além da matriz de propriedades. Hotéis localizados em áreas de encosta, zonas de alagamento ou centros urbanos com ilhas de calor precisam de estratégias de mitigação específicas, que impactam diretamente os custos operacionais e a manutenção dos ativos.

O custo da energia elétrica e a eficiência dos sistemas de climatização tornam-se variáveis de receita e custo simultâneas. Em cenários de calor extremo, a demanda por ar-condicionado dispara, elevando os custos fixos operacionais. Para o revenue manager, isso não é apenas uma questão de custo, mas de experiência do cliente. A incapacidade de manter o conforto térmico pode afetar a percepção de valor e, consequentemente, a disposição a pagar, especialmente em mercados onde a sazonalidade já é um fator de pressão sobre a taxa média diária (ADR).

Implicações para a controladoria e o night audit

Para a equipe de night audit e a controladoria, a materialização de riscos climáticos exige uma reavaliação das contas a receber e das provisões para sinistros. A lentidão no processamento de indenizações, somada à subcobertura, cria um risco de liquidez que pode afetar o GOPPAR (Gross Operating Profit per Available Room) em meses críticos. A gestão de caixa precisa incorporar cenários de estresse financeiro associados a interrupções prolongadas de operações, onde a receita cai abruptamente, mas custos fixos como folha de pagamento, contratos de manutenção e dívidas de longo prazo permanecem.

A contabilidade de custos também precisa ser refinada. A frequência de reparos emergenciais em fachadas, telhados e sistemas de drenagem pode elevar o custo de manutenção por quarto ocupado. Se esses custos não forem alocados corretamente na análise de desempenho, a margem de lucro operacional pode ser subestimada, levando a decisões de investimento inadequadas. A controladoria deve estabelecer indicadores de risco climático integrados ao dashboard financeiro, monitorando a exposição de cada propriedade a eventos extremos e a adequação das coberturas de seguro.

Além disso, a gestão de suprimentos e a cadeia de fornecedores enfrentam riscos de interrupção. Chuvas extremas podem paralisar o transporte de alimentos e insumos, impactando a operação de food & beverage, que é crucial para a receita total do hotel. A diversificação de fornecedores e a manutenção de estoques de segurança tornam-se estratégias de mitigação de risco, com implicações diretas no custo de capital de giro.

A distribuição de receita também é afetada. A volatilidade na ocupação, causada por cancelamentos de eventos ou restrições de acesso a áreas turísticas devido a intempéries, exige uma gestão de receita mais ágil. O revenue manager precisa ajustar dinamicamente as tarifas e as políticas de cancelamento para maximizar a receita em cenários de demanda incerta. A integração entre dados meteorológicos e sistemas de gestão de receita (RMS) torna-se uma vantagem competitiva, permitindo antecipar quedas na demanda e ajustar a estratégia de vendas.

Comparação internacional e riscos sistêmicos

O cenário brasileiro assemelha-se ao observado em outras economias emergentes, onde a infraestrutura de seguros de desastres é menos desenvolvida do que em países de alta renda. Na Europa, por exemplo, a integração de dados climáticos na precificação de seguros e na política pública de infraestrutura tem avançado mais rapidamente, impulsionada por regulamentações mais rígidas e maior conscientização do mercado. No Brasil, a ausência de um marco regulatório específico para seguros climáticos e a baixa penetração do seguro habitacional e empresarial limitam a capacidade do setor de transferir riscos.

O risco sistêmico é outro ponto de atenção. A concentração de propriedades hoteleiras em litorais e áreas urbanas densas aumenta a exposição a eventos correlacionados. Um grande evento climático pode afetar múltiplas propriedades de uma mesma rede ou de um mesmo grupo de investidores, criando um risco de contágio financeiro. A análise de concentração de risco e a diversificação geográfica da carteira de ativos tornam-se estratégicas para a resiliência do portfólio.

As implicações para a governança corporativa são significativas. O conselho de administração e a diretoria financeira precisam incorporar o risco climático às discussões estratégicas, definindo metas de redução de emissões e de adaptação às mudanças climáticas. A transparência na divulgação de riscos climáticos nos relatórios de sustentabilidade e financeiros é crescente, pressionada por investidores institucionais que demandam maior clareza sobre a exposição das empresas a esses riscos.

O que observar adiante

Nos próximos anos, a evolução do mercado de seguros no Brasil será determinante para a capacidade do setor hoteleiro de se proteger contra riscos climáticos. A entrada de novos players, a digitalização da subscrição e o desenvolvimento de produtos específicos para o setor de hospitalidade podem ampliar a cobertura e reduzir os prêmios. A monitorização da penetração do seguro empresarial e habitacional, bem como da inovação em produtos paramétricos, que pagam indenizações com base em dados objetivos (como intensidade de vento ou altura de água), é essencial.

A infraestrutura pública também desempenha um papel crucial. Investimentos em drenagem urbana, defesa civil e planos de contingência podem reduzir a frequência e a severidade dos danos às propriedades hoteleiras. A colaboração entre o setor privado e o poder público na gestão de riscos climáticos é fundamental para a construção de uma resiliência coletiva.

Para os gestores de hotéis, a mensagem é clara: o risco climático não é mais um evento raro, mas uma variável de negócio. A integração da análise climática na gestão financeira, operacional e de receita é imperativa para a sustentabilidade e a rentabilidade do setor. Aqueles que ignorarem essa mudança correm o risco de ver seus balanços erodidos por perdas recorrentes e não seguradas, comprometendo a capacidade de investimento e a competitividade de longo prazo. A preparação para o futuro climático começa agora, com uma gestão de riscos mais sofisticada e proativa.

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Fonte:segs.com.br — ler notícia original.

Transparência editorial: reportagem produzida pela redação da The Contáveis. com apoio de ferramentas de inteligência artificial na sumarização e redação, e revisada editorialmente antes da publicação. O ângulo, a seleção de dados e o enquadramento para back-of-house hoteleiro são originais desta redação; todo material factual é atribuído à fonte primária citada acima. Encontrou um erro? Peça uma correção.

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Editor responsável · Redação

Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.

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