Controller feminina no centro do debate sobre inovação e gestão no Brasil
Participação de executiva da BSPAR em painel na Unimed Fortaleza destaca o papel da controladoria na liderança da transformação digital e na governança de dados do setor de serviços.

A presença de uma Controller Corporativa em um painel dedicado à inovação e à liderança feminina, realizado durante a Semana de Inovação da Unimed Fortaleza, sinaliza uma mudança de paradigma na percepção do mercado sobre o papel da controladoria. Historicamente vista como uma função de back-office, focada na conciliação de contas e no fechamento mensal, a área financeira tem migrado para o centro das decisões estratégicas. Ao integrar o debate com profissionais de tecnologia e saúde, a executiva da BSPAR reforça a tese de que a governança de dados e a integridade das informações são pré-requisitos inegociáveis para qualquer iniciativa de inovação corporativa no Brasil.
O evento, que reuniu lideranças de setores distintos, incluiu a fundadora de uma startup de marketplace que passou por uma operação de saída de investimento e uma ex-CEO do setor de energia. Essa diversidade de trajetórias permitiu discutir a inovação não apenas como o desenvolvimento de novas tecnologias, mas como uma competência administrativa transversal. Para o setor de hotelaria, essa abordagem é particularmente relevante, pois os sistemas de Property Management System (PMS) e as plataformas de distribuição exigem uma sincronia perfeita entre a operação da frente de casa e a precisão contábil da retaguarda.
A Controladoria como Motor da Transformação Digital
No contexto brasileiro, a digitalização acelerada do pós-pandemia impôs novas exigências aos controllers e night auditors. A capacidade de processar grandes volumes de transações em tempo real tornou-se um diferencial competitivo. Quando a controladoria deixa de ser apenas um centro de custos para se tornar um centro de inteligência, ela passa a influenciar diretamente as métricas de desempenho, como o RevPAR e o GOPPAR. A presença de líderes financeiros em fóruns de inovação indica que as empresas reconhecem que a qualidade dos dados é o alicerce para a tomada de decisão baseada em fatos, e não em intuições.
Para os gestores de receita, essa integração é crítica. As ferramentas de Revenue Management dependem de dados limpos e atualizados sobre ocupação, ADR e disponibilidade. Se a controladoria não garantir a precisão dessas informações, as previsões de demanda e as estratégias de precificação ficam comprometidas. A sinergia entre a área financeira e a de tecnologia, discutida no painel, é o que permite que hotéis e redes hoteleiras otimizem seus resultados operacionais e financeiros de forma simultânea.
O setor de hotelaria no Brasil enfrenta um cenário de margens apertadas e custos operacionais elevados. Nesse ambiente, a eficiência financeira não é apenas uma questão de sobrevivência, mas de crescimento. A adoção de práticas de governança corporativa mais robustas, inspiradas em modelos internacionais, tem se tornado uma prioridade para os controllers brasileiros. A participação em eventos de inovação demonstra que a profissão está em evolução, abraçando a tecnologia e a análise de dados como ferramentas centrais de atuação.
Implicações para a Operação Noturna e a Distribuição
A relação entre a controladoria e a operação noturna é um dos pontos mais sensíveis da gestão hoteleira. O night audit é responsável por garantir a integridade dos dados durante as horas de menor atividade, realizando o fechamento do dia e a preparação dos relatórios para a manhã seguinte. Qualquer erro nesse processo pode gerar distorções nas métricas de desempenho e afetar as decisões de precificação dos dias subsequentes. A valorização profissional dessa função, muitas vezes vista como burocrática, é essencial para a excelência operacional.
Além disso, a distribuição de canais, que envolve OTAs, GDS e sites próprios, exige uma monitorização constante das tarifas e das comissões. A controladoria desempenha um papel vital na auditoria dessas transações, garantindo que as receitas sejam reconhecidas corretamente e que as comissões pagáveis estejam dentro dos parâmetros contratuais. A falta de alinhamento entre a área financeira e a de vendas pode resultar em perdas significativas de receita, um risco que as empresas estão cada vez mais dispostas a mitigar através de controles internos mais rigorosos.
A comparação com o cenário internacional revela que, em mercados maduros como o norte-americano, a figura do Controller já é amplamente reconhecida como parte do C-suite, participando ativamente das reuniões estratégicas. No Brasil, essa transição está em andamento, impulsionada pela necessidade de transparência e pela pressão por resultados mais consistentes. A presença de executivas femininas nesse debate também reflete a crescente diversidade nas posições de liderança, um fator que estudos indicam estar correlacionado com maior resiliência organizacional e melhor desempenho financeiro.
Desafios e Perspectivas para o Setor
Apesar dos avanços, persistem desafios significativos. A escassez de profissionais qualificados que dominem tanto a contabilidade quanto a tecnologia continua a ser uma dor de cabeça para as empresas. A formação tradicional de contadores no Brasil ainda é predominantemente teórica, com pouca ênfase em análise de dados e automação de processos. Para que a controladoria cumpra seu novo papel de protagonista na inovação, é necessário investir na capacitação contínua dos profissionais, oferecendo trilhas de aprendizado que incluam ferramentas de Business Intelligence e governança de dados.
Os riscos de não acompanhar essa transformação são claros. Empresas que mantiverem a controladoria isolada da estratégia e da tecnologia tenderão a operar com base em informações defasadas, perdendo a capacidade de reagir rapidamente às mudanças do mercado. Em um setor tão dinâmico quanto o de hotelaria, onde a demanda pode variar drasticamente de uma semana para outra, a agilidade informacional é sinônimo de sobrevivência. A integração entre as áreas é, portanto, não apenas uma tendência, mas uma exigência competitiva.
O que observar adiante é a consolidação dessa nova narrativa. Será interessante monitorar se as grandes redes hoteleiras e os grupos de gestão de serviços começarão a criar cargos híbridos, como Chief Data Officer ou Head of Financial Intelligence, que unam as competências técnicas da contadoria com a visão estratégica da inovação. A participação de líderes financeiros em eventos de tecnologia e inovação é um indicativo promissor, sugerindo que o setor está pronto para repensar suas estruturas e prioridades. A evolução da profissão de Controller no Brasil está em curso, e os próximos anos devem trazer uma profissionalização ainda maior, com foco na criação de valor através da análise de dados e da governança corporativa.
A discussão promovida em Fortaleza, envolvendo a BSPAR e outras organizações, serve como um marco dessa transformação. Ao colocar a controladoria no mesmo patamar da tecnologia e da gestão de pessoas, o evento reforça a ideia de que a inovação é um esforço coletivo que exige a colaboração de todas as áreas da empresa. Para o profissional de hotelaria, a mensagem é clara: dominar a língua dos números e a lógica dos dados é essencial para navegar com sucesso no complexo cenário do mercado hoteleiro brasileiro.
Mark
Editor responsável · Redação
Mark
Editor responsável · Redação
Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.