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Economia

Crédito do Fungetur em SC sobe, mas gargalos operacionais travam ROI hoteleiro

Liberação de R$ 70,95 milhões impulsiona infraestrutura no interior catarinense, porém especialistas alertam para a necessidade de governança financeira e gestão de receita para sustentar o crescimento.

Redação The Contáveis.5 min de leitura
Crédito do Fungetur em SC sobe, mas gargalos operacionais travam ROI hoteleiro

A liberação de R$ 70,95 milhões pelo Fundo Geral do Turismo (Fungetur) em Santa Catarina entre janeiro e agosto de 2026 marca um inflexão no financiamento do setor hoteleiro e de serviços turísticos no estado. O aumento de 56% no volume de crédito, conforme reportado pelo portal ND Mais, não se restringe aos grandes polos consolidados como Florianópolis e Balneário Camboriú, mas atinge com força o interior, onde pequenos empreendedores e estruturas familiares buscam capital de giro e investimento em infraestrutura. Para o setor de hotelaria, esse fluxo de recursos representa uma oportunidade histórica de modernização, mas também expõe a fragilidade estrutural de muitas operações que, historicamente, operam com margens apertadas e baixa formalidade contábil.

O contexto imediato revela uma desconcentração geográfica dos investimentos, com destaque para municípios menores no Vale do Itajaí e no Planalto Serrano. Enquanto o litoral já opera com taxas de ocupação elevadas e ADRs (Preço Médio Diário) competitivos, o interior aposta em nichos como ecoturismo e turismo religioso. A chegada de capital subsidiado ou de linhas específicas do Fungetur permite que esses destinos invistam em comodidades que antes eram inviáveis, como ampliação de quartos, melhoria de áreas de lazer e digitalização de processos. No entanto, a transformação de crédito em receita efetiva depende de uma execução operacional impecável, algo que muitas vezes falta nas propriedades familiares que agora passam a operar com a complexidade de empresas de médio porte.

A Armadilha do Capital Sem Governança

Do ponto de vista da controladoria hoteleira, o acesso facilitado a crédito traz uma consequência direta: a necessidade de uma estrutura de custos mais rigorosa. Hotéis que antes gerenciavam suas finanças de forma intuitiva, baseadas em caixas simples e planilhas básicas, enfrentam agora a pressão de prestarem contas a instituições financeiras e, potencialmente, a investidores. A terminologia do setor, como GOPPAR (Gross Operating Profit Per Available Room) e BAR (Back of House to Front of House ratio), deixa de ser jargão acadêmico e passa a ser requisito para a saúde do negócio. Sem uma segmentação clara de custos operacionais versus administrativos, o aumento do endividamento pode corroer a margem bruta, transformando o alívio de liquidez em uma âncora de longo prazo.

A gestão de receita, por sua vez, é o principal vetor de retorno sobre esse investimento. Em mercados emergentes no interior de Santa Catarina, a elasticidade de preço tende a ser diferente da observada em capitais. Revenue managers precisam adaptar suas estratégias de precificação dinâmica, considerando a sazonalidade local e a composição da demanda, que muitas vezes é menos corporativa e mais focada em lazer de curta duração. O desafio é maximizar o RevPAR (Receita por Quarto Disponível) sem comprometer a percepção de valor, especialmente quando a infraestrutura recém-financiada ainda não está totalmente consolidada na experiência do hóspede. A falta de dados históricos robustos nesses mercados exige uma abordagem mais conservadora na modelagem de demanda, onde a intuição do gerente de vendas ainda pesa mais do que os algoritmos preditivos.

Indicadores de Crédito e Setor em Santa Catarina (2026)
MétricaValor/DescriçãoContexto
Crédito Fungetur LiberadoR$ 70,95 milhõesAcumulado Jan-Ago 2026
Crescimento do Crédito56%Comparativo ao período anterior
Foco GeográficoInterior e LitoralDiversificação além de Florianópolis

Implicações Operacionais para o Night Audit

Para o time de back-of-house, especificamente os night auditors e controladores, as mudanças são tangíveis. A entrada de novos leitos e a diversificação dos produtos turísticos exigem uma reconciliação diária mais complexa. O fechamento do dia (end-of-day report) não pode mais ser apenas uma verificação de caixa, mas um diagnóstico de eficiência operacional. Erros de classificação de receita, especialmente em pacotes que misturam hospedagem com experiências turísticas locais, podem distorcer os indicadores de desempenho e gerar passivos fiscais ou contábeis. A automação desses processos, muitas vezes financiada pelo próprio crédito do Fungetur, é crucial para reduzir a carga cognitiva dos auditores noturnos, que historicamente operam em condições de alta pressão e baixa supervisão.

Além disso, a distribuição digital ganha protagonismo. Hotéis no interior, que antes dependiam de operadores de turismo e agências locais, precisam agora competir diretamente nas OTAs (Online Travel Agencies) e em seus próprios canais. Isso implica em uma gestão mais ativa de inventário e tarifas, onde a disponibilidade em tempo real é crítica. A sincronização entre o PMS (Property Management System) e os canais de distribuição deve ser ininterrupta para evitar overbookings ou underbookings, erros que, em propriedades menores, têm um impacto desproporcional na reputação e na receita. A capacidade de integrar dados de ocupação, ADR e RevPAR em dashboards em tempo real torna-se uma vantagem competitiva para quem consegue capitalizar o investimento inicial.

Paralelos Internacionais e Riscos Estruturais

Historicamente, o Brasil segue um padrão observado em outras economias emergentes, onde o crédito subsidiado para o turismo tende a gerar um boom de oferta que, sem uma demanda correspondente e qualificada, leva a uma queda nos ADRs e a uma subutilização da capacidade instalada. O paralelo com o setor de hospedagem em regiões de ecoturismo na América Latina mostra que a infraestrutura física é apenas o ponto de partida. O sucesso depende de uma oferta de experiências de alto valor agregado, que justifique a permanência do hóspede e aumente o gasto per diem. Em Santa Catarina, a diversidade de atrações, das cavernas de Botuverá ao turismo religioso em Nova Trento, oferece essa base, mas a monetização exige uma curadoria cuidadosa dos produtos vendidos.

Os riscos, portanto, são duplos. De um lado, a inadimplência ou o mau uso do capital por operadores sem experiência em gestão financeira de varejo hoteleiro. De outro, a saturação rápida de mercados locais que não possuem a capacidade de absorver novos fluxos de visitantes sem degradar a experiência. A pressão por crescimento pode levar a uma redução na qualidade do serviço, um erro fatal em um mercado onde a indicação boca a boca e as avaliações online determinam a viabilidade a longo prazo. A contrapartida para o acesso ao crédito deve incluir, idealmente, capacitação em gestão, algo que nem sempre é acompanhado pela liberação do recurso.

O Que Observar nos Próximos Ciclos

A observação futura deve focar na evolução dos indicadores de eficiência, não apenas de volume. O setor de hotelaria em Santa Catarina entrará em uma fase de consolidação onde as propriedades que conseguirem alinhar a expansão física com a maturidade financeira serão as vencedoras. O papel do controller e do revenue manager deixa de ser reativo e passa a ser estratégico, orientando decisões de investimento com base em dados de desempenho real. A integração entre o back-of-house e o front-of-house, facilitada por sistemas integrados, será o diferencial que separará as operações rentáveis das que apenas sobrevivem ao ciclo de crédito. A atenção deve ser voltada para a sustentabilidade do modelo de negócios, onde a geração de caixa livre, e não apenas o crescimento da receita bruta, será a métrica definitiva de sucesso.

Em resumo, os R$ 70,95 milhões são um catalisador, mas não uma garantia. A transformação do crédito em valor exige uma mudança cultural na gestão hoteleira catarinense, com foco em disciplina contábil, precificação inteligente e excelência operacional. O interior do estado tem o potencial para se tornar um polo de turismo de alto padrão, mas isso dependerá da capacidade dos operadores de internalizar as melhores práticas de gestão que o mercado globalizado exige. A janela de oportunidade está aberta, mas o custo de entrada em termos de competência gerencial nunca foi tão alto.

Vídeo relacionado ao tema — YouTube

Fonte:ndmais.com.br — ler notícia original.

Transparência editorial: reportagem produzida pela redação da The Contáveis. com apoio de ferramentas de inteligência artificial na sumarização e redação, e revisada editorialmente antes da publicação. O ângulo, a seleção de dados e o enquadramento para back-of-house hoteleiro são originais desta redação; todo material factual é atribuído à fonte primária citada acima. Encontrou um erro? Peça uma correção.

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Editor responsável · Redação

Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.

267 matérias publicadasEsta matéria · 11 de outubro de 2026