Crise de matrícula em escolas de hotelaria expõe descompasso com mercado
Queda na procura por cursos de gestão hoteleira no Brasil e Europa reflete mudança no perfil do talento, pressionando a formação técnica e a retenção de profissionais em cargos operacionais críticos.

A discussão sobre a viabilidade de instituições de ensino superior focadas em turismo e hotelaria, como a Escola Superior de Turismo e Hotelaria (ESTH) em Seia, Portugal, ecoa com força no cenário brasileiro. O debate, iniciado por questionamentos sobre a capacidade de atração de estudantes e a relevância da grade curricular, aponta para uma crise estrutural que transcende as fronteiras da península ibérica. No Brasil, o setor de hotelaria enfrenta um paradoxo: a demanda por mão de obra qualificada em funções de back-of-house continua robusta, mas a oferta de talentos formados e dispostos a permanecer no operacional está em queda livre. Esse descompasso não é um fenômeno pontual, mas sim a materialização de uma tendência de longo prazo, iniciada no ciclo pós-pandemia, onde a percepção de valor do trabalho em hotelaria foi radicalmente reavaliada pela nova geração de profissionais.
A erosão do interesse pelo operacional
Historicamente, a formação em hotelaria no Brasil era vista como um trampolim para carreiras de gestão corporativa ou, em alguns casos, como uma porta de entrada para a elite social urbana. Essa narrativa, porém, perdeu tração. Os jovens profissionais de hoje, influenciados pela cultura do trabalho remoto e pela valorização da flexibilidade, tendem a evitar posições que exijam disponibilidade total, como as de night auditor ou controlador financeiro. A baixa procura por esses cursos específicos, em detrimento de áreas mais 'portáteis' como marketing digital ou tecnologia, sugere que o mercado acadêmico não está conseguindo traduzir a complexidade técnica da hotelaria em uma proposta de valor atrativa. A ausência de uma narrativa de carreira clara, que conecte a operação diária à alta gestão, contribui para o vazamento de talentos para setores como logística, varejo ou tecnologia, onde a promessa de equilíbrio entre vida pessoal e profissional é mais tangível.
Para o setor hoteleiro brasileiro, essa migração de talentos tem implicações diretas na eficiência operacional. O cargo de night auditor, por exemplo, exige uma combinação rara de habilidades: domínio profundo de sistemas de Property Management Systems (PMS), conhecimento contábil para fechamento diário e capacidade de resolução de problemas em tempo real. Quando a base de candidatos para vagas técnicas diminui, os hotéis se veem obrigados a recrutar perfis menos especializados, o que aumenta a curva de aprendizado e o risco de erros no fechamento diário (end-of-day report). Esses erros, por sua vez, distorcem os dados de ocupação e ADR (Average Daily Rate) em tempo real, comprometendo a precisão das decisões de revenue management nas primeiras horas do dia seguinte. A qualidade dos dados gerados na noite é o alicerce da estratégia de precificação do dia seguinte; uma falha aqui pode significar perda de receita significativa ao longo do mês.
O impacto na controladoria e no GOPPAR
A escassez de profissionais formados em finanças hoteleiras também afeta a controladoria. O controle de custos, a análise de variação orçamentária e o cálculo do GOPPAR (Gross Operating Profit Per Available Room) dependem de analistas que entendam a especificidade do setor, como a sazonalidade e a natureza perecível do inventário. Sem uma formação sólida, os controllers podem cometer erros na alocação de custos indiretos, subestimando o impacto de despesas operacionais na margem de lucro. Isso é particularmente crítico em um mercado onde a pressão por eficiência é constante. A tendência de redução na matrícula para cursos de hotelaria indica que as empresas terão que investir mais em treinamento interno (upskilling) para compensar a falta de base teórica dos recém-contratados, aumentando o custo de capital humano e reduzindo a produtividade inicial da equipe.
Além disso, a falta de profissionais qualificados em revenue management é um risco estratégico. O revenue manager moderno não é apenas um analista de dados, mas um estrategista que precisa entender a psicologia do consumidor e a dinâmica competitiva local. A formação tradicional, muitas vezes focada em aspectos gerais de administração, pode não preparar o profissional para a complexidade das ferramentas de demanda forecasting e otimização de mix de canais. No Brasil, onde a distribuição digital é predominante, a capacidade de interpretar dados de OTAs (Online Travel Agencies) e de ajustar tarifas dinamicamente é essencial. A ausência de uma base acadêmica robusta nessa área pode levar a decisões precificadas por intuição em vez de dados, resultando em perda de competitividade frente a redes internacionais que possuem centros de treinamento avançados.
Paralelos internacionais e o futuro da formação
A situação em Portugal, onde a ESTH debate seu futuro, oferece um paralelo útil para o Brasil. Em ambos os casos, a questão central é a relevância da oferta formativa frente às necessidades do mercado. A adaptação curricular é uma necessidade urgente. No Brasil, as instituições de ensino precisam integrar mais tecnologia, análise de dados e sustentabilidade nas grades de hotelaria. A transformação do Instituto Politécnico da Guarda em Universidade Técnica, mencionada no contexto português, sugere uma mudança de paradigma: a hotelaria não é mais apenas uma área de serviço, mas uma indústria complexa que requer rigor técnico e científico. No Brasil, a tendência é a convergência entre hotelaria e tecnologia, com a criação de cursos híbridos que formem profissionais capazes de operar em ambientes digitais complexos.
A comparação histórica mostra que o setor sempre se adaptou, mas a velocidade da mudança atual é inédita. A digitalização acelerada pela pandemia forçou uma reestruturação rápida, e a formação não acompanhou esse ritmo. A baixa procura por cursos tradicionais é um sinal de alerta: os estudantes estão buscando formação que ofereça empregabilidade imediata e perspectivas de carreira claras. Para o Brasil, isso significa que as escolas precisam se reinventar, parcerias com o setor privado são essenciais para garantir que a formação esteja alinhada com as demandas reais do mercado. A ligação entre escola e empresa, frequentemente citada como uma lacuna, precisa ser fortalecida para que os alunos tenham acesso a estágios de qualidade e oportunidades de contratação.
Os riscos de não agir são significativos. A escassez de talentos em funções críticas pode levar a uma queda na qualidade do serviço, impactando a reputação dos hotéis e, consequentemente, a ocupação e o ADR. Em um mercado competitivo, a experiência do hóspede é o principal diferenciador, e essa experiência depende diretamente da competência da equipe. A falta de profissionais qualificados pode resultar em erros operacionais, reclamações de clientes e perda de receita. Além disso, a instabilidade na equipe de back-of-house pode afetar a moral dos demais colaboradores, criando um ciclo vicioso de turnover e desmotivação.
O que observar adiante é a capacidade das instituições de ensino e das empresas hoteleiras de colaborarem para resolver esse impasse. A criação de programas de formação contínua, parcerias com plataformas de tecnologia e a valorização da carreira técnica são passos fundamentais. O setor precisa entender que a formação não é um custo, mas um investimento estratégico. A baixa procura por cursos de hotelaria é um reflexo de uma crise de identidade do setor, que precisa se reposicionar para atrair a nova geração de profissionais. A resposta a esse desafio determinará a competitividade da hotelaria brasileira nos próximos anos, impactando diretamente a eficiência operacional e a rentabilidade dos hotéis.
A discussão sobre a ESTH em Portugal serve como um espelho para o Brasil, mostrando que a crise de matrícula é um fenômeno global, mas com particularidades locais. No Brasil, a diversidade regional e a fragmentação do mercado hoteleiro exigem soluções adaptadas a cada contexto. A centralização da formação em grandes centros urbanos pode deixar regiões turísticas importantes sem acesso a talentos qualificados, aprofundando as desigualdades regionais. A solução passa por uma abordagem descentralizada, com a criação de polos de formação em destinos turísticos estratégicos, garantindo que a oferta de talentos esteja alinhada com a demanda local.
Em resumo, a baixa procura por cursos de hotelaria é um sintoma de uma transformação mais profunda no mercado de trabalho. O setor precisa se adaptar às novas expectativas dos profissionais, oferecendo carreiras desafiadoras, bem remuneradas e com perspectivas de crescimento. A formação técnica e a valorização do conhecimento especializado são a chave para reverter essa tendência e garantir a sustentabilidade da hotelaria brasileira. A colaboração entre academia e indústria é imperativa para criar um ecossistema de talentos que possa suportar o crescimento do setor e enfrentar os desafios do futuro.
A análise dos dados de matrícula e a evolução das carreiras no setor mostram que a inércia não é uma opção. A hotelaria brasileira precisa de uma nova narrativa, que destaque a complexidade e a importância das funções operacionais. A formação de night auditors, controllers e revenue managers deve ser vista como uma prioridade estratégica, capaz de impactar diretamente a performance financeira dos hotéis. O futuro da hotelaria depende da capacidade de atrair e reter talentos, e a crise de matrícula é um chamado para a ação imediata.
Mark
Editor responsável · Redação
Mark
Editor responsável · Redação
Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.