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Custo de energia no hotel: o novo mercado livre muda a gestão de custos fixos

A abertura do mercado de energia elétrica atinge o setor hoteleiro em 2027 e 2028. Controllers e gestores de receita precisam entender como a migração afeta o GOPPAR e a previsibilidade orçamentária.

Redação The Contáveis.6 min de leitura
Custo de energia no hotel: o novo mercado livre muda a gestão de custos fixos

A estrutura de custos fixos do setor hoteleiro brasileiro está prestes a passar por uma das maiores transformações regulatórias das últimas décadas. A Lei 15.269/2025, que estabelece a abertura gradual do mercado de energia elétrica, redefine o papel do hotel não apenas como consumidor passivo, mas como agente econômico com capacidade de escolha. Para a controladoria e os gestores financeiros, isso significa que a energia deixa de ser uma variável externa incontrolável para se tornar uma alavanca estratégica de gestão de custos, exigindo uma revisão profunda nos modelos de precificação e no planejamento orçamentário anual.

Historicamente, o setor hoteleiro tem tratado a fatura de energia como um custo operacional inevitável, categorizado dentro das despesas gerais de utilidades. No modelo cativo, a distribuidora local é a única contraparte, e o preço é determinado pela tarifa regulamentada, com reajustes anuais baseados em índices de inflação e custos de geração. Essa previsibilidade, embora limitada, permitia que os controllers planejassem o GOPPAR com certa margem de segurança. Com a abertura, essa premissa muda radicalmente, introduzindo volatilidade de mercado e a necessidade de negociação ativa.

A complexidade da migração para o mercado livre

O decreto 13.097/2026 detalha os mecanismos de transição, incluindo a figura do Supridor de Última Instância, que atuará como rede de segurança caso o fornecedor livre falhe. Para o gerente financeiro, o risco de sobrecontratação é um ponto de atenção crítica. Se o hotel não gerenciar adequadamente seu perfil de consumo ou se o fornecedor livre não entregar a energia contratada, o estabelecimento pode ser cobrado por diferenças tarifárias elevadas. Isso exige uma modelagem financeira mais robusta, capaz de simular cenários de estresse e calcular o valor esperado do custo energético sob diferentes condições de mercado.

A transição não é imediata para todos os perfis. Pequenos negócios atendidos em baixa tensão poderão migrar a partir de novembro de 2027, enquanto os consumidores residenciais, que incluem apartamentos-hotel e unidades de serviço, seguem para 2028. Para hotéis de médio e grande porte, que já operam no mercado livre ou em condições de alta tensão, a mudança representa a extensão de práticas já existentes, mas com uma nova camada de complexidade na cadeia de suprimentos. A integração entre o departamento de compras, a controladoria e o setor de utilidades será fundamental para evitar silos de informação que possam comprometer a eficiência da negociação.

O impacto no GOPPAR será direto e mensurável. Energia elétrica é um dos maiores componentes das despesas operacionais, frequentemente representando entre 15% e 25% do total de custos em hotéis urbanos com alta densidade de equipamentos. Uma redução de 5% no custo unitário de energia pode significar um aumento proporcional na margem bruta, especialmente em períodos de alta ocupação onde os custos variáveis de pessoal e F&B pressionam o resultado. No entanto, essa otimização exige investimento em tecnologia de monitoramento em tempo real e em softwares de gestão de energia que permitam identificar picos de consumo e oportunidades de arbitragem.

Implicações para a controladoria e o night audit

Para o night auditor, a mudança traz desafios operacionais inesperados. Tradicionalmente, a conciliação diária de contas é focada em receitas e despesas diretas, mas a energia, por ser paga mensalmente, muitas vezes fica fora do radar diário. Com a abertura do mercado, a variação de preços pode ocorrer em ciclos mais curtos, dependendo do tipo de contrato. Isso exige que a controladoria implemente controles internos mais granulares, possivelmente vinculando o consumo diário às tarifas praticadas no mercado livre. O night audit pode precisar de novos dashboards que mostrem não apenas o consumo, mas o custo estimado do consumo em tempo real, facilitando a identificação de anomalias.

A comunicação interna será tão importante quanto a negociação externa. Os colaboradores que operam os sistemas de gestão de energia precisam entender que suas ações impactam diretamente o custo da fatura. Programas de conscientização e treinamento devem ser parte do plano de transição. Além disso, a transparência com o cliente final, especialmente em hotéis que oferecem serviços de carregamento de veículos elétricos ou que possuem certificações de sustentabilidade, pode se tornar um diferencial competitivo. O custo da energia verde, por exemplo, pode ser um argumento de venda para clientes corporativos com metas de ESG.

O cenário internacional oferece lições valiosas. Na Europa, a liberalização do mercado de energia ocorreu de forma gradual ao longo de décadas, permitindo que as empresas se adaptassem aos novos mecanismos de precificação. O Brasil, ao adotar um cronograma mais acelerado, corre o risco de sobrecarregar os agentes econômicos, especialmente os pequenos hotéis que não possuem departamentos de compras especializados. A ausência de uma estrutura dedicada pode levar a decisões subótimas, como a contratação de fornecedores com taxas de serviço ocultas ou contratos com penalidades severas por quebra de volume.

Riscos regulatórios e a necessidade de transparência

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) terá o papel crucial de regulamentar os procedimentos de migração e retorno ao mercado cativo. A flexibilidade para voltar ao mercado cativo é um mecanismo de segurança, mas sua utilização deve ser vista como último recurso, dado que o processo administrativo pode ser burocrático e demorado. A controladoria deve mapear os prazos e as condições para essa reversão, incorporando-os ao plano de contingência financeira. A opacidade dos produtos oferecidos pelos novos fornecedores é outro risco. A comparação de propostas exige uma análise técnica detalhada, que vai além do preço por quilowatt-hora, considerando a liquidez do mercado, a reputação do fornecedor e a clareza dos termos contratuais.

A abertura do mercado também abre espaço para novas formas de financiamento e investimento. Hotéis que realizam retrofit para melhorar a eficiência energética podem acessar linhas de crédito específicas ou contratos de performance, onde o investimento em eficiência é pago com a economia gerada. Essa abordagem, conhecida como ESCO (Energy Service Company), permite que o hotel reduza seu custo operacional sem desembolso inicial significativo, melhorando o fluxo de caixa e o retorno sobre o investimento. A integração entre o planejamento de capital e a gestão de utilidades é, portanto, um imperativo estratégico.

No curto prazo, a instabilidade regulatória pode gerar cautela. Muitos gestores podem optar por adiar a migração até que as regras sejam mais claras, o que pode resultar em uma janela de oportunidade para os primeiros entrantes no mercado livre. A velocidade de adaptação será um fator diferenciador. Hotéis que agirem cedo, com base em análises robustas, podem garantir contratos mais vantajosos e estabelecer precedentes positivos para o setor. A colaboração entre associações hoteleiras e órgãos reguladores será essencial para garantir que as especificidades do setor sejam consideradas nas regulamentações finais.

O fechamento deste ciclo de abertura não é apenas uma mudança técnica, mas uma redefinição da relação entre o hotel e a rede de energia. A energia deixa de ser um insumo invisível para se tornar um ativo gerenciável. A capacidade de traduzir essa complexidade em vantagem competitiva dependerá da maturidade financeira e operacional dos estabelecimentos. Aqueles que investirem em dados, em transparência e em capacitação de suas equipes estarão melhor posicionados para navegar a nova normalidade do mercado de energia no Brasil.

A observação dos próximos meses deve se concentrar na edição das portarias da Aneel que detalharão os procedimentos de migração. O mercado estará atento à definição dos encargos de sobrecontratação e à disponibilidade de dados históricos de consumo para facilitar a modelagem financeira. A transparência na divulgação dos custos de geração e transmissão será o termômetro da saúde do novo mercado. Para o setor hoteleiro, a lição é clara: a gestão de energia é agora uma função estratégica, e não apenas operacional.

Vídeo relacionado ao tema — YouTube

Fonte:exame.com — ler notícia original.

Transparência editorial: reportagem produzida pela redação da The Contáveis. com apoio de ferramentas de inteligência artificial na sumarização e redação, e revisada editorialmente antes da publicação. O ângulo, a seleção de dados e o enquadramento para back-of-house hoteleiro são originais desta redação; todo material factual é atribuído à fonte primária citada acima. Encontrou um erro? Peça uma correção.

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Editor responsável · Redação

Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.

262 matérias publicadasEsta matéria · 08 de outubro de 2026