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Custo oculto da infraestrutura: como perdas em energia e água comprimem o GOPPAR dos hotéis

Desvios em serviços básicos elevam tarifas regulatórias e pressionam margens operacionais. A hotelaria brasileira deve integrar a gestão de eficiência energética e hídrica à estratégia financeira para proteger o lucro por disponibilidade.

Redação The Contáveis.8 min de leitura
Custo oculto da infraestrutura: como perdas em energia e água comprimem o GOPPAR dos hotéis

A estrutura de custos operacionais da hotelaria brasileira atravessa um momento de inflexão silenciosa, mas estrutural. Enquanto a atenção da indústria se volta predominantemente para a otimização do Revenue Management e a maximização do Average Daily Rate (ADR), uma pressão ascendente nos custos fixos e variáveis de infraestrutura ameaça corroer a rentabilidade líquida. O cenário foi iluminado recentemente por dados divulgados no seminário Mercado Ilegal, em Brasília, que quantificaram o impacto econômico dos desvios em serviços básicos — energia, água e telecomunicações — em dezenas de bilhões de reais. Para o setor hoteleiro, a implicação não é apenas moral ou ambiental, mas estritamente financeira: o custo do "gato" é socializado através das tarifas regulatórias, impactando diretamente o GOPPAR (Gross Operating Profit Per Available Room) e a competitividade internacional do destino Brasil.

Os números apresentados pelas agências reguladoras revelam a magnitude do passivo que o setor formal, incluindo as redes hoteleiras, é obrigado a arcar. Na área de energia elétrica, os desvios representam cerca de 7,5% de toda a energia produzida no país, um volume equivalente a 45 terawatt-hora (TWh). Para contextualizar a escala, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, uma das maiores da América Latina, gerou 30 TWh no ano anterior. O custo financeiro desses desvios é estimado em R$ 11,5 bilhões, valor que se traduz em um aumento médio de 3,1% nas contas de luz dos consumidores finais. Desse montante, a maior parte corresponde a perdas reconhecidas regulatoriamente nas tarifas, o que significa que a oneração é embutida na tarifação e repassada integralmente aos usuários legais, entre eles, os hotéis.

A matemática da tarifa e o impacto no P&L

Para o controller de um hotel, a conta de energia não é um custo estático. Ela é composta por diversas parcelas, incluindo a energia ativa, reativa, os encargos setoriais e as perdas técnicas e não técnicas. As perdas não técnicas, popularmente conhecidas como "gatos", são incorporadas à tarifa base. Quando a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) regulamenta as tarifas para o próximo ciclo, ela considera a eficiência do sistema. Se as perdas são altas, a tarifa para o consumidor final precisa ser maior para que a concessionária recupere seus investimentos e custos operacionais. Portanto, cada real desviado ilegalmente em outro ponto da rede elétrica é um real que o hotel paga na sua fatura, sem ter consumido aquela energia.

No saneamento básico, a situação é ainda mais crítica para as operações hoteleiras, que são intensivas no uso de água. Os desvios correspondem a 39% da produção total, gerando prejuízos de R$ 3,6 bilhões apenas em 2024. O Marco Legal do Saneamento estabelece a meta de reduzir esse índice para 25% até 2033. No entanto, o caminho para essa redução envolve ajustes tarifários que tendem a encarecer o serviço para o usuário final no curto e médio prazo. Para um hotel de médio a grande porte, que pode consumir milhares de metros cúbicos mensais em lavanderias, piscinas, spas e preparo de alimentos, a volatilidade e a tendência de alta nos preços da água são variáveis de risco financeiro significativas que devem ser modeladas nos budgets anuais.

A pressão sobre as margens não se limita às faturas de utilidades. O setor de telecomunicações também enfrenta desafios com a pirataria de serviços de internet e sinal de TV, com a retirada de mais de 10 milhões de produtos não homologados do mercado entre 2018 e 2025, incluindo 1,6 milhão de TV Boxes piratas. Embora o impacto direto no custo operacional do hotel possa parecer menor comparado à energia e à água, a infraestrutura de conectividade é um pilar central da experiência do hóspede moderno e da operação back-of-house. A insegurança cibernética associada a dispositivos não homologados, que podem ser usados para roubo de dados e crimes via IP dos consumidores, expõe as redes hoteleiras a riscos de compliance e segurança da informação que podem resultar em multas e danos reputacionais irreparáveis.

Implicações operacionais para o back-of-house

Para o night auditor e a equipe de controladoria, a gestão desses custos exige uma mudança de paradigma. Não basta mais apurar as faturas e lançá-las nos centros de custo. É necessário um monitoramento granular do consumo, com a implementação de submedição em áreas críticas da operação. A correlação entre a ocupação do hotel, o ALOS (Average Length of Stay) e o consumo de energia e água deve ser analisada diariamente. Desvios no padrão de consumo podem indicar vazamentos, equipamentos ineficientes ou, em casos mais raros, fraudes internas. A precisão dos dados de consumo é fundamental para a apuração correta do GOPPAR, um dos principais indicadores de performance financeira do setor.

O revenue manager, tradicionalmente focado na receita de quartos e F&B, também precisa se atentar a esses custos variáveis. Em períodos de alta ocupação, o custo marginal de energia e água aumenta significativamente. Se a tarifa desses insumos estiver pressionada por perdas sistêmicas, a rentabilidade de cada reserva adicional pode ser menor do que o previsto. Isso exige uma integração mais estreita entre as áreas de receita e operações, para que as estratégias de precificação considerem não apenas a demanda e a concorrência, mas também o custo real de manter o hóspede no hotel. A eficiência operacional torna-se, portanto, uma alavanca de receita, ao proteger a margem bruta contra a erosão causada por custos externos.

A distribuição de serviços básicos no Brasil enfrenta desafios estruturais que vão além da fiscalização. A presença do crime organizado em territórios onde operam concessionárias dificulta o combate aos desvios, com relatos de agressões a agentes das empresas. Além disso, a adulteração de medidores e o uso de energia furtada em condomínios e estabelecimentos comerciais são práticas correntes que distorcem a base de cálculo das tarifas. Para o setor hoteleiro, isso significa que a competitividade de preço não pode ser alcançada apenas pela redução de custos internos, mas também pela pressão por um ambiente regulatório mais eficiente e justo. A advocacia setorial, através de associações como a Abrasel, deve atuar para garantir que as tarifas reflitam a realidade do consumo formal e não subsidiem a ilegalidade.

Paralelos internacionais e riscos sistêmicos

Ao comparar o cenário brasileiro com mercados maduros da hotelaria, como os Estados Unidos ou a Europa Ocidental, a diferença na eficiência da infraestrutura de serviços básicos é evidente. Nesses mercados, as perdas não técnicas são minimizadas por meio de fiscalização rigorosa, tecnologia de medição avançada e uma cultura de conformidade mais enraizada. As tarifas de energia e água, embora possam ser altas devido a outros fatores, não carregam o mesmo peso de subsidiação cruzada que ocorre no Brasil. Isso coloca os hotéis brasileiros em desvantagem competitiva, especialmente no segmento de negócios e luxo, onde os custos operacionais são um diferencial decisivo para a escolha do destino.

O risco sistêmico também se manifesta na volatilidade regulatória. O Marco Legal do Saneamento, por exemplo, traz incertezas sobre a evolução das tarifas nos próximos anos. Enquanto a meta de redução de perdas é clara, o caminho para alcançá-la pode envolver aumentos tarifários progressivos que impactarão o fluxo de caixa dos hotéis. Além disso, a transição energética global, com a pressão por sustentabilidade e descarbonização, pode levar à内部ização dos custos ambientais, como o preço do carbono, o que elevará ainda mais o custo da energia elétrica. Hoteliers que não investirem em eficiência energética e hídrica agora estarão mais expostos a esses riscos no futuro.

A segurança cibernética é outro vetor de risco que merece atenção. A proliferação de dispositivos IoT (Internet of Things) não homologados, como os TV Boxes piratas mencionados, cria vetores de ataque para redes corporativas. Para o hotel, cuja rede de dados é compartilhada entre hóspedes e funcionários, a vulnerabilidade a ataques de ransomware ou vazamento de dados de pagamento é uma ameaça concreta. A conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) exige que as redes hoteleiras sejam blindadas contra acessos não autorizados, o que implica investimentos em infraestrutura de TI e treinamento de pessoal, custos adicionais que também impactam o P&L.

O horizonte da gestão financeira hoteleira

Diante desse cenário, a gestão financeira das hotéis brasileiros deve evoluir de uma abordagem reativa para uma postura proativa e estratégica. A eficiência operacional não é mais apenas uma questão de redução de custos, mas de proteção da margem e da competitividade. Isso exige a integração de dados de consumo de energia e água aos sistemas de gestão hoteleira (PMS), permitindo uma análise em tempo real do desempenho operacional. A implementação de sistemas de automação predial, com sensores de presença e controle inteligente de climatização e iluminação, pode reduzir o consumo sem comprometer a experiência do hóspede.

Além disso, a diversificação das fontes de energia, como a geração distribuída por meio de painéis solares, pode oferecer uma proteção contra a volatilidade tarifária e os aumentos impostos pelas perdas do sistema. Embora o investimento inicial seja significativo, o retorno sobre o investimento (ROI) tende a ser atrativo no médio prazo, especialmente considerando a tendência de alta dos preços da energia. A certificação de sustentabilidade, como a LEED ou a Green Key, também pode agregar valor à marca e atrair hóspedes conscientes, justificando um ADR mais elevado.

A colaboração setorial é fundamental para enfrentar os desafios estruturais. As associações de classe devem atuar em conjunto com as agências reguladoras para defender tarifas justas e eficientes, e para promover a fiscalização rigorosa dos desvios. O compartilhamento de melhores práticas entre os hotéis, especialmente no que diz respeito à gestão de consumo e segurança cibernética, pode acelerar a adoção de soluções eficazes. A formação de profissionais capacitados em eficiência energética e gestão de riscos também é crucial para sustentar essa transformação.

O combate à exploração ilegal de serviços básicos é, portanto, uma responsabilidade coletiva que transcende as fronteiras do setor hoteleiro. No entanto, os impactos financeiros são sentidos diretamente no balneário dos hotéis. A capacidade de adaptar-se a esse novo ambiente regulatório e econômico será um diferencial competitivo decisivo nos próximos anos. Os hotéis que conseguirem integrar a gestão de eficiência e riscos à sua estratégia financeira não apenas protegerão suas margens, mas também contribuirão para a sustentabilidade do setor e do país. A observação atenta das tendências regulatórias, dos custos de insumos e das tecnologias de eficiência será essencial para navegar nesse cenário de incertezas e oportunidades. O futuro da hotelaria brasileira depende, em parte, da nossa capacidade de gerenciar não apenas a receita, mas também o custo invisível da infraestrutura nacional.

Fonte:valor.globo.comler notícia original.

Transparência editorial: reportagem produzida pela redação da The Contáveis. com apoio de ferramentas de inteligência artificial na sumarização e redação, e revisada editorialmente antes da publicação. O ângulo, a seleção de dados e o enquadramento para back-of-house hoteleiro são originais desta redação; todo material factual é atribuído à fonte primária citada acima. Encontrou um erro? Peça uma correção.

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Editor responsável · Redação

Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.

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