El Niño e o custo oculto da hotelaria: riscos climáticos na controladoria
Medidas da Embrapa para o agro revelam a necessidade de gestão de riscos climáticos no setor hoteleiro. Controladores e revenue managers devem integrar variáveis ambientais nos modelos de precificação e nos custos operacionais.

A publicação de uma nota técnica pela Embrapa, contendo 163 medidas de gestão de riscos climáticos para a agropecuária brasileira, ecoa com força peculiar nos corredores das controladorias de hotéis. Embora o documento tenha sido elaborado sob a égide do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para mitigar os impactos do fenômeno El Niño na safra 2026/2027, a lógica subjacente transcende o campo e atinge diretamente a infraestrutura de serviços. Para o gestor financeiro hoteleiro, a lição não está na técnica agrícola, mas na sistematização da resposta a variáveis exógenas que distorcem a receita e inflacionam os custos operacionais. O setor de hotelaria, historicamente sensível às oscilações sazonais, enfrenta agora a pressão de integrar a volatilidade climática como uma variável estrutural em seus modelos de gestão, similar ao que o agronegócio está sendo compelido a fazer.
O contexto imediato é definido por uma mudança de paradigma na percepção de risco. Durante décadas, eventos climáticos extremos foram tratados como force majeure ou anomalias pontuais, absorvidas como perdas extraordinárias nos demonstrativos de resultado. No entanto, a frequência e a intensidade de secas prolongadas, chuvas torrenciais e ondas de calor no Brasil exigem uma abordagem mais sofisticada. A nota da Embrapa, que destaca a necessidade de ações permanentes e não apenas reativas, serve como um espelho para a indústria hoteleira. Se o agronegócio, com sua escala e poder de lobby, reconhece a urgência de um zoneamento de risco climático, a hotelaria, fragmentada e com margens apertadas, não pode permanecer alheia a essa realidade. A gestão de riscos deixa de ser um exercício contábil para se tornar uma estratégia operacional central.
No cenário atual do setor hoteleiro brasileiro, os indicadores de desempenho estão sob escrutínio rigoroso. O RevPAR (Receita Média por Quarto Disponível) e o ADR (Tarifa Média Diária) são tradicionalmente analisados em função da ocupação e da sazonalidade turística. Contudo, a introdução de variáveis climáticas adiciona uma camada de complexidade que muitos modelos de revenue management ainda não capturam adequadamente. Uma onda de calor extrema em uma cidade turística pode, paradoxalmente, aumentar a demanda por hospedagem, mas elevar drasticamente o GOPPAR (Ganho Operacional por Quarto Disponível) devido ao consumo de energia. Por outro lado, chuvas intensas podem cancelar eventos corporativos, derrubando a ocupação e a receita de F&B (Alimentos e Bebidas), sem que a redução de custos fixos acompanhe essa queda de receita. A correlação entre clima e desempenho financeiro é direta, mas frequentemente mal modelada.
A Termodinâmica da Controladoria
As implicações operacionais para a back-of-house são profundas e imediatas. Para o night auditor, a tarefa vai além da conciliação diária de contas. Ele precisa estar atento a anomalias nos relatórios de consumo de energia e água que possam indicar falhas nos sistemas de climatização ou vazamentos, agravados por condições climáticas adversas. A precisão na alocação de custos energéticos por departamento torna-se crítica. Quando a temperatura externa atinge picos históricos, a carga térmica sobre o edifício aumenta, exigindo que os sistemas de HVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado) operem em capacidade máxima. Se a controladoria não tiver um modelo robusto de alocação de custos de energia, não será possível identificar se o aumento do OPEX (Despesas Operacionais) é decorrente de ineficiência operacional, falta de manutenção preventiva ou simplesmente da exposição climática.
Para o revenue manager, a integração de dados meteorológicos nos algoritmos de precificação dinâmica é um imperativo estratégico. Não se trata apenas de ajustar preços com base na previsão de sol ou chuva, mas de antecipar o comportamento do consumidor em cenários de estresse térmico. Estudos internacionais indicam que a disposição a pagar por conforto térmico aumenta significativamente durante ondas de calor. Hotéis com certificações de eficiência energética e sistemas de climatização modernos podem comandar um prêmio de preço, enquanto那些 com infraestrutura obsoleta podem sofrer com reclamações e cancelamentos, mesmo que a ocupação inicial tenha sido alta. A capacidade de prever e comunicar o valor do conforto térmico torna-se uma ferramenta de diferenciação competitiva, mas exige uma base de dados histórica que correlacione temperatura, umidade e taxa de conversão.
A distribuição também é afetada. Canais de venda direta e OTAs (Agências de Viagens Online) podem utilizar tags ou filtros relacionados ao clima, como "ar-condicionado eficiente" ou "resiliência energética", para atrair viajantes conscientes ou preocupados com o conforto. A falta de transparência sobre a capacidade do hotel de manter ambientes confortáveis em condições extremas pode levar a avaliações negativas, impactando a reputação online e, consequentemente, a futura demanda. A gestão da reputação, portanto, torna-se parte integrante da gestão de riscos climáticos, exigindo que a equipe de marketing e vendas esteja alinhada com a operação e a manutenção.
Paralelos Globais e Lições Históricas
A experiência internacional oferece paralelos instrutivos. Na Europa, onde a regulamentação ambiental é mais rigorosa e os eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes, os hotéis líderes do setor já incorporaram métricas de sustentabilidade e resiliência climática em seus relatórios anuais e em suas estratégias de investimento. O conceito de "hotel resiliente" não é mais um nicho de marketing, mas uma exigência de investidores e seguradoras. Seguradoras no exterior estão começando a ajustar prêmios de seguro com base na exposição climática dos ativos, um movimento que tende a se refletir no Brasil nos próximos anos. A hotelaria brasileira, que ainda lida com uma base instalada envelhecida em muitas regiões, enfrenta o desafio duplo de modernizar sua infraestrutura e adaptar seus modelos de gestão a essas novas realidades.
Historicamente, a hotelaria brasileira reagiu de forma reativa aos choques externos. Crises econômicas, pandemias e desastres naturais foram tratados como eventos isolados, com planos de contingência focados na sobrevivência imediata. A lição da Embrapa é a necessidade de uma abordagem proativa e estruturada. Isso significa investir em sistemas de monitoramento ambiental em tempo real, realizar auditorias energéticas regulares e desenvolver cenários de estresse climático nos planos orçamentários. A controladoria deve liderar essa transição, trabalhando em conjunto com as equipes de engenharia, revenue e sustentabilidade para criar um framework integrado de gestão de riscos.
Os riscos, contudo, são significativos. A principal barreira é a falta de dados granulares e históricos que permitam modelar com precisão o impacto financeiro de diferentes cenários climáticos. Muitos hotéis ainda não possuem sistemas de medição de energia por zona ou por andar, o que dificulta a identificação de ineficiências e a alocação correta de custos. Além disso, há uma resistência cultural em setores mais tradicionais, que ainda veem a sustentabilidade e a gestão de riscos climáticos como custos adicionais, e não como investimentos em resiliência e eficiência. Superar essa resistência exige uma mudança de mentalidade, liderada pela alta administração e pela controladoria, que devem comunicar claramente o retorno sobre o investimento (ROI) em eficiência energética e resiliência.
O Horizonte da Gestão Integrada
O que observar adiante é a consolidação de padrões de relatórios de sustentabilidade e riscos climáticos, alinhados com as melhores práticas internacionais, como as do TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures). À medida que os investidores e as instituições financeiras exigirem maior transparência sobre a exposição climática dos ativos hoteleiros, a hotelaria brasileira precisará se adaptar rapidamente. A nota técnica da Embrapa, embora focada no agronegócio, serve como um catalisador para essa discussão, lembrando que a gestão de riscos climáticos é uma competência transversal, essencial para qualquer setor que dependa de recursos naturais e esteja exposto às intempéries.
Para os controllers e gerentes financeiros, o desafio é transformar essa consciência em ação prática. Isso envolve revisar os modelos de previsão de receita para incluir variáveis climáticas, atualizar os orçamentos de OPEX para refletir os custos reais de operação em condições extremas e investir em tecnologia de gestão de energia e água. A colaboração interdepartamental é fundamental. O night audit precisa fornecer dados precisos de consumo, o revenue manager deve ajustar as estratégias de precificação e a equipe de manutenção deve garantir a eficiência dos sistemas. Somente através dessa integração será possível construir uma hotelaria brasileira mais resiliente, eficiente e preparada para os desafios climáticos do futuro.
A mensagem da Embrapa é clara: a gestão de riscos não é um luxo, mas uma necessidade de sobrevivência e competitividade. Para a hotelaria, isso significa abandonar a ilusão de que o clima é uma variável externa incontrolável e começar a tratá-lo como um fator de gestão estratégica. Aqueles que adotarem essa postura proativa não apenas mitigarão perdas, mas também identificarão oportunidades de diferenciação e eficiência em um mercado cada vez mais consciente e exigente. A controladoria, como guardiã da saúde financeira do hotel, tem um papel central nessa transformação, liderando a coleta de dados, a análise de riscos e a implementação de controles internos que garantam a resiliência operacional e financeira.
Em suma, a adaptação à nova realidade climática não é apenas uma questão ambiental, mas uma questão de negócios. A hotelaria brasileira está em um ponto de inflexão, onde a capacidade de antecipar e responder a riscos climáticos determinará a sobrevivência e o sucesso de muitos estabelecimentos. A lição do agronegócio é valiosa: a gestão de riscos deve ser permanente, estruturada e integrada a todas as áreas da organização. Para os profissionais da back-of-house, isso representa uma oportunidade de elevar o nível de sofisticação da gestão hoteleira, passando de uma abordagem reativa para uma estratégia proativa e baseada em dados. O futuro da hotelaria brasileira depende, em parte, de quão bem seus gestores financeiros conseguirem internalizar e aplicar esses princípios de resiliência climática.
Mark
Editor responsável · Redação
Mark
Editor responsável · Redação
Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.