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O impacto econômico do turismo de corrida nas contas dos hotéis do Centro-Oeste

A explosão de eventos como a Maratona de Campo Grande e a Corrida do Pantanal redefine a demanda sazonal. Para a hotelaria, o desafio é maximizar o GOPPAR em picos curtos de alta ocupação e ADR, além de gerenciar a logística de check-in mas

Redação The Contáveis.7 min de leitura
O impacto econômico do turismo de corrida nas contas dos hotéis do Centro-Oeste

O cenário do turismo esportivo no Brasil passa por uma transformação estrutural, impulsionada pela profissionalização de amadores e pela busca por experiências de bem-estar integradas a destinos urbanos e naturais. Em Campo Grande, a capital mato-grossense, esse fenômeno deixou de ser um nicho para se tornar um vetor econômico relevante, conforme destacado recentemente pelo Correio do Estado ao analisar a ascensão de provas como a Maratona local e a Corrida do Pantanal. Para a indústria hoteleira, especialmente para os controladores e gestores de receita, essa movimentação não se resume a números de ocupação; ela representa um teste de estresse para a operação back-of-house, exigindo precisão financeira e logística em janelas de tempo extremamente curtas e intensas.

A trajetória da Maratona de Campo Grande ilustra essa escalada. Criada em 2022, a prova saltou de pouco mais de mil inscritos para mais de cinco mil em sua edição mais recente, consolidando-se no circuito nacional. Esse crescimento exponencial em poucos anos altera a dinâmica da demanda hoteleira na cidade. Historicamente, o turismo de corrida é caracterizado por picos de demanda concentrados em um ou dois dias, criando um cenário de "all-in" para a ocupação. Para o revenue manager, o desafio não é apenas vender quartos, mas garantir que a receita gerada por essas noites de pico compense os custos operacionais elevados e os períodos de baixa que podem anteceder ou suceder o evento.

A matemática do pico sazonal

No contexto da hotelaria brasileira, a métrica central para avaliar a saúde financeira desses eventos é o GOPPAR (Gasto Operacional por Quarto Disponível). Eventos de corrida tendem a aumentar o ADR (Preço Médio Diário) significativamente devido à escassez de oferta nas datas específicas, mas também inflacionam os custos variáveis. A necessidade de reforço de equipe, limpeza intensiva pós-check-out acelerado e serviços de alimentação para grupos de corredores que chegam em lotes pressionam a margem operacional. Se o hotel não gerenciar esses custos com a mesma rigorosidade que aplica aos preços de venda, o aumento da ocupação pode resultar em uma diluição do lucro por quarto disponível.

Além disso, a composição do viajante de corrida é distinta do turista de lazer tradicional ou do viajante de negócios. O corredor tende a ter uma estadia curta, muitas vezes de apenas uma noite, e é altamente sensível a conveniências logísticas como estacionamento para transporte de equipamentos, proximidade ao local de largada e opções de café da manhã cedo. Isso impacta diretamente o ALOS (Comprimento Médio da Estadia). Um ALOS reduzido significa mais ciclos de housekeeping por dia, aumentando a carga de trabalho e os custos com insumos de limpeza. A controladoria deve monitorar se a receita adicional de F&B (Food & Beverage) e serviços anciliares consegue absorver esse aumento na frequência de turnover dos quartos.

A integração da Maratona de Campo Grande ao Circuito Brasil Gigante, que reúne grandes provas do país, adiciona uma camada de complexidade à análise de mercado. Ao entrar para um circuito nacional, a cidade passa a competir não apenas com destinos locais, mas com outras metrópoles que oferecem pacotes similares. Para os gestores de distribuição, isso exige uma presença robusta nos canais diretos e em plataformas especializadas em turismo esportivo. A visibilidade nacional atrai participantes de fora do estado, e dados preliminares indicam que cerca de um terço dos inscritos pode vir de outras regiões ou países. Esse fluxo externo é crucial para a hotelaria, pois esses viajantes têm maior probabilidade de utilizar acomodações hoteleiras em comparação aos residentes locais.

Crescimento de Inscrições em Eventos de Corrida em Campo Grande
EventoAnoInscritosCrescimento Acumulado
Maratona de Campo Grande20221.115-
Maratona de Campo Grande20254.552+308%
Maratona de Campo Grande20265.311+377%
Corrida do Pantanal202525.020-

O efeito multiplicador da Corrida do Pantanal

Enquanto a maratona atrai um público mais focado em performance, a Corrida do Pantanal demonstra a capacidade de eventos esportivos de massa em gerar volume bruto. Com mais de 25 mil inscritos em 2025, segundo levantamentos municipais, o evento se tornou um dos maiores aglomerados do calendário local. Para a hotelaria, um evento dessa magnitude representa um risco e uma oportunidade. O risco reside na saturação da oferta: se a capacidade hoteleira da cidade não for suficiente para absorver todos os participantes que necessitam de hospedagem, a receita potencial é perdida para cidades vizinhas ou para alternativas de curta permanência. A oportunidade, por outro lado, está na criação de pacotes que incluam hospedagem, transporte e acesso a áreas de alimentação, aumentando o ticket médio por hóspede.

A diversificação do calendário esportivo, com a inclusão de corridas noturnas, eventos corporativos e iniciativas como o Dia do Corre, ajuda a suavizar a sazonalidade extrema. O Dia do Corre, por exemplo, que reúne milhares de participantes mensalmente, cria uma demanda recorrente que pode ser aproveitada por hotéis que oferecem tarifas corporativas ou parcerias com grupos de corrida. Essa regularidade permite uma previsibilidade maior para o planejamento de receita, permitindo que os revenue managers ajustem as curvas de preço com mais antecedência e segurança, reduzindo a dependência exclusiva dos grandes eventos anuais.

Do ponto de vista operacional, o night audit enfrenta desafios específicos durante esses períodos. O check-in massivo de corredores que chegam tarde da noite ou muito cedo pela manhã exige processos otimizados e, muitas vezes, o uso de tecnologia para automação. A precisão nos lançamentos contábeis é vital, pois a mistura de tarifas negociadas com grupos, tarifas de última hora e pacotes promocionais pode complicar a reconciliação diária. Erros na atribuição de receita ou no cálculo de impostos sobre serviços turísticos podem gerar passivos fiscais significativos, especialmente em eventos de grande porte onde o volume de transações é elevado.

A comparação com mercados internacionais maduros, como os Estados Unidos ou a Europa, revela que o turismo de corrida é uma indústria bilionária que exige especialização. Nos EUA, hotéis em cidades como Chicago ou Nova York desenvolvem departamentos específicos para lidar com "running groups", oferecendo serviços como secagem de roupas, massagens e refeições personalizadas. No Brasil, essa especialização ainda está em fase de maturação. A hotelaria brasileira tende a tratar esses grupos como qualquer outro segmento de lazer, perdendo oportunidades de upselling e fidelização. A adoção de práticas mais segmentadas pode ser um diferencial competitivo para hotéis que buscam se destacar no mercado de eventos esportivos.

Riscos operacionais e a gestão da expectativa

Um dos principais riscos para a hotelaria em eventos de corrida é a gestão da expectativa do hóspede. Corredores são frequentemente exigentes em termos de conforto, silêncio e pontualidade. Qualquer falha na operação, como atraso no check-in, quartos não limpos ou falta de café da manhã, pode resultar em avaliações negativas que impactam a reputação online do hotel. Em um mercado onde a decisão de compra é cada vez mais influenciada por reviews, uma única experiência negativa durante um grande evento pode ter consequências duradouras. A controladoria deve, portanto, considerar o custo do reputacional como parte da análise de risco, investindo em treinamento de equipe e processos de qualidade.

Além disso, a volatilidade das condições climáticas e a possibilidade de cancelamentos ou adiamentos de eventos representam um risco financeiro direto. Contratos de grupo com cancelamento flexível podem proteger o hotel de perdas, mas também limitam a capacidade de garantir receita antecipada. O equilíbrio entre flexibilidade e garantia é um dos dilemas centrais para os negociadores de grupos. A tendência pós-pandemia tem sido de maior cautela por parte dos organizadores de eventos, que buscam cláusulas mais favoráveis, transferindo parte do risco para os fornecedores de hospedagem.

A infraestrutura urbana também desempenha um papel crucial. Em Campo Grande, a ocupação de parques e avenidas para as corridas pode dificultar o acesso aos hotéis, especialmente para aqueles localizados próximos ao percurso. Isso exige uma coordenação eficiente entre a organização do evento, a prefeitura e os hotéis para garantir que os hóspedes possam chegar e sair dos estabelecimentos sem transtornos. A logística de transporte, incluindo a oferta de vans ou parcerias com aplicativos de mobilidade, pode ser um serviço de valor agregado que justifique tarifas mais altas.

Para os gestores financeiros, a análise pós-evento é fundamental. Comparar as projeções de receita com os resultados reais, avaliar a eficiência dos canais de distribuição e medir a satisfação do hóspede permite ajustes para as edições futuras. A criação de dashboards específicos para eventos esportivos, que integrem dados de ocupação, ADR, RevPAR e custos operacionais, pode fornecer insights valiosos para a tomada de decisão. A padronização desses relatórios, alinhada às normas do USALI (Uniform System of Accounts for the Lodging Industry), facilita a comparação com benchmarks setoriais e a identificação de oportunidades de melhoria.

O crescimento do turismo de corrida no Brasil, exemplificado por Campo Grande, sinaliza uma oportunidade de longo prazo para a hotelaria. No entanto, capitalizar essa demanda exige mais do que apenas quartos disponíveis. Exige uma operação ágil, uma estratégia de receita sofisticada e uma compreensão profunda das necessidades desse segmento específico de viajantes. Os hotéis que conseguirem alinhar eficiência operacional com uma experiência personalizada terão a vantagem competitiva necessária para se destacarem em um mercado cada vez mais disputado.

A observação contínua das tendências de inscrição, a evolução dos circuitos nacionais e o feedback dos participantes serão essenciais para ajustar as estratégias. A hotelaria brasileira está em um momento de transição, onde a profissionalização do back-of-house e a especialização no atendimento a nichos de mercado, como o turismo esportivo, serão determinantes para a sustentabilidade financeira e o crescimento do setor. O caso de Campo Grande serve como um estudo de caso relevante para entender como eventos locais podem se tornar motores econômicos, desde que a indústria hoteleira esteja preparada para gerir a complexidade que eles trazem.

Vídeo relacionado ao tema — YouTube

Fonte:correiodoestado.com.brler notícia original.

Transparência editorial: reportagem produzida pela redação da The Contáveis. com apoio de ferramentas de inteligência artificial na sumarização e redação, e revisada editorialmente antes da publicação. O ângulo, a seleção de dados e o enquadramento para back-of-house hoteleiro são originais desta redação; todo material factual é atribuído à fonte primária citada acima. Encontrou um erro? Peça uma correção.

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Editor responsável · Redação

Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.

237 matérias publicadasEsta matéria · 02 de setembro de 2026