Onfly e a consolidação da despesa corporativa no Brasil
Plataforma visa R$ 2,3 bilhões em 2026 com expansão latam. Para o setor hoteleiro, a centralização de pagamentos e políticas de viagem redefine o fluxo de caixa e a auditoria noturna, exigindo integração direta com sistemas PMS e controle g

O mercado de viagens corporativas no Brasil atravessa uma fase de maturidade acelerada, marcada não apenas pelo volume de transações, mas pela complexidade da integração financeira. A Onfly, plataforma que nasceu para resolver a dor latente dos reembolsos manuais, projeta movimentar R$ 2,3 bilhões em 2026, um salto significativo se comparado aos R$ 1,3 bilhão registrados no ano anterior. Para o ecossistema hoteleiro, essa expansão não é apenas uma métrica de receita bruta, mas um sinalizador estrutural sobre como o dinheiro entra nos sistemas de propriedade. A centralização da gestão de viagens em plataformas digitais está alterando fundamentalmente a relação entre o hotel, o viajante corporativo e a controladoria da empresa contratante, transformando o processo de check-out e reconciliação financeira.
A origem da plataforma remete a uma falha sistêmica comum no back-office das corporações: a ineficiência dos processos de reembolso. Quando o fundador da Onfly enfrentava atrasos de até três meses para receber valores de viagens e a falta de controle sobre gastos pessoais misturados com os corporativos, identificou-se uma lacuna crítica de governança. Hoje, essa lacuna é preenchida por algoritmos que aplicam políticas de viagem em tempo real. Para os gestores financeiros de hotéis, isso significa que a negociação de tarifas e o cumprimento das regras de compra deixaram de ser uma validação pós-fato para se tornarem uma barreira prévia. Se a tarifa não está dentro da política ou se o hotel não possui contrato corporativo adequado, a transação simplesmente não ocorre, impactando diretamente a ocupação e o ADR (Average Daily Rate) das propriedades.
A nova anatomia do fluxo de caixa
A projeção de crescimento da Onfly para R$ 2,3 bilhões em 2026 reflete uma tendência global de consolidação de fornecedores de viagens corporativas. No Brasil, onde o setor de turismo de negócios movimentou R$ 8,4 bilhões entre janeiro e julho de 2026, com crescimento de 8,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, a participação de plataformas digitais como a Onfly tende a aumentar sua fatia. Isso ocorre porque as empresas buscam visibilidade total sobre seus gastos, algo impossível com a fragmentação de reservas feitas diretamente pelos colaboradores sem supervisão centralizada.
Para a controladoria hoteleira, a presença massiva de plataformas como a Onfly implica uma mudança na natureza das dívidas a receber. Historicamente, os hotéis lidavam com faturas corporativas mensais ou cartões de crédito pessoais dos viajantes, sujeitos a disputas e atrasos. Com a integração de cartões corporativos virtuais e físicos emitidos pelas plataformas de viagem, o pagamento torna-se instantâneo e garantido. No entanto, isso transfere a responsabilidade da validação da despesa do hotel para a plataforma. O night auditor, figura central na reconciliação diária das contas, vê seu papel transformado. A verificação manual de cada item da conta do hóspede corporativo perde relevância frente à automação, mas ganha complexidade na necessidade de garantir que o sistema PMS (Property Management System) esteja comunicando-se corretamente com a API da plataforma de viagens.
A expansão internacional da Onfly, iniciada no México em 2025, adiciona outra camada de complexidade cambial e regulatória. Para hotéis brasileiros que recebem viajantes de empresas multinacionais ou que operam em mercados fronteiriços, a padronização das faturas e a conformidade fiscal tornam-se desafios constantes. A plataforma atua como um intermediário financeiro que não apenas processa o pagamento, mas também estrutura a despesa de acordo com as normas contábeis da empresa contratante. Isso exige que os sistemas hoteleiros sejam flexíveis o suficiente para aceitar diferentes formatos de cobrança e identificação de centro de custo, algo que muitas propriedades ainda tratam de forma rudimentar.
| Ano | Movimentação (R$ bi) | Crescimento (%) |
|---|---|---|
| 2019 | 0,0075 | - |
| 2021 | 0,045 | 500% |
| 2025 | 1,3 | - |
| 2026 (Proj) | 2,3 | 77% |
Impacto na auditoria e na gestão de receita
A digitalização da viagem corporativa, descrita pelos fundadores da Onfly como um movimento irreversível, tem implicações profundas para a gestão de receita (revenue management). Quando as políticas de viagem são aplicadas rigidamente pelas plataformas, a elasticidade de preço do viajante corporativo diminui. Os viajantes não têm liberdade para negociar tarifas no momento da reserva, pois estão limitados aos contratos pré-estabelecidos entre a empresa e os fornecedores. Para os revenue managers, isso significa que a estratégia de precificação deve ser feita no nível do contrato corporativo, e não na venda direta ao viajante. A otimização do RevPAR (Revenue Per Available Room) passa a depender da capacidade de oferecer tarifas competitivas e benefícios agregados que se alinhem às políticas de custo das grandes corporações.
Além disso, a integração de serviços como gestão de frotas e cartões corporativos na mesma plataforma cria um ecossistema de dados valioso para os hotéis. Ao entenderem que o viajante utiliza também transporte e alimentação através da mesma plataforma, as propriedades podem oferecer pacotes integrados que capturem mais valor da despesa total do viajante (Total Travel Spend). No entanto, isso exige uma cooperação estreita entre as equipes de vendas corporativas dos hotéis e as plataformas de viagem, algo que ainda é incipiente no mercado brasileiro. A maioria dos hôtels ainda trata a venda de quartos e a venda de serviços complementares como silos separados, perdendo oportunidades de aumentar o GOPPAR (Gross Operating Profit Per Available Room).
A comparação com mercados mais maduros, como os Estados Unidos, revela que a consolidação de plataformas de viagens corporativas é um fenômeno global. Nos EUA, empresas como a Concur e a American Express GBT dominam o cenário, impondo padrões rigorosos de conformidade e eficiência. O Brasil está seguindo esse caminho, mas com particularidades locais, como a complexidade tributária e a preferência por negociação direta. A Onfly, ao expandir seus serviços e mercados, está ajudando a padronizar esses processos, forçando os hotéis a modernizarem seus sistemas e processos internos para manterem competitividade.
Riscos e a evolução da governança
Apesar dos benefícios de eficiência e controle, a dependência de plataformas de terceiros traz riscos operacionais para os hotéis. A falha em uma integração API, por exemplo, pode paralisar as reservas de uma grande conta corporativa, impactando significativamente a ocupação. Além disso, a centralização do poder de negociação nas plataformas pode pressionar as margens dos hotéis, especialmente para propriedades que não possuem uma marca forte ou localização privilegiada. Os hotéis precisam equilibrar a conveniência oferecida pelas plataformas com a necessidade de manter relações diretas com os viajantes e as empresas, para evitar a commodity-ficação de seus produtos.
Outro ponto de atenção é a segurança dos dados e a conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). As plataformas de viagens corporativas lidam com volumes massivos de dados sensíveis, incluindo informações financeiras e de localização dos viajantes. Qualquer vazamento ou falha de segurança pode ter repercussões legais e reputacionais graves para os hotéis parceiros. A governança de dados torna-se, portanto, uma competência crítica para as equipes de TI e compliance das propriedades hoteleiras.
Olhando para o futuro, a tendência é de uma integração ainda maior entre as plataformas de viagens corporativas e os sistemas hoteleiros. A inteligência artificial promete otimizar ainda mais as políticas de viagem, ajustando-as dinamicamente com base em dados de mercado e comportamento do viajante. Para os hotéis, isso significa que a personalização da oferta e a antecipação das necessidades do viajante serão cada vez mais automatizadas. A equipe de back-of-house, incluindo controllers e night auditors, precisará se adaptar a um ambiente onde a automação é a norma e a intervenção humana é reservada para exceções e casos complexos.
A expansão da Onfly e de players similares não é apenas sobre movimentar mais dinheiro; é sobre redefinir a arquitetura financeira da hospitalidade corporativa. Para os profissionais do setor, o desafio é garantir que os sistemas e processos internos estejam alinhados com essa nova realidade, aproveitando os ganhos de eficiência sem abdicar do controle e da rentabilidade. A observação atenta das métricas de desempenho, como o tempo de reconciliação de contas e a taxa de disputa de cobranças, será crucial para medir o sucesso dessa transição digital.
Em suma, a jornada da Onfly de uma solução pontual para reembolsos até uma plataforma integrada de gestão de viagens corporativas reflete a evolução do setor hoteleiro em direção a uma maior eficiência e transparência. Para os hotéis, adaptar-se a essa mudança não é opcional, mas uma necessidade estratégica para permanecerem relevantes no mercado corporativo. A próxima fronteira será a integração de dados em tempo real para decisões de receita e operações, onde a velocidade e a precisão da informação serão os principais diferenciais competitivos.
Mark
Editor responsável · Redação
Mark
Editor responsável · Redação
Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.