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Sustentabilidade

Vila Flores e a nova economia do turismo de interior no Brasil

A seleção da ONU para o município gaúcho sinaliza uma mudança no perfil do viajante brasileiro, que busca experiências autênticas e de baixo impacto, desafiando o modelo tradicional de hotelaria de massa.

Redação The Contáveis.5 min de leitura
Vila Flores e a nova economia do turismo de interior no Brasil

A seleção de Vila Flores, na Serra Gaúcha, para representar o Brasil em uma iniciativa da Organização das Nações Unidas dedicada a vilas turísticas sustentáveis marca um ponto de inflexão na narrativa do turismo nacional. Para o setor de hotelaria, o anúncio não é apenas uma distinção cultural, mas um indicador macroeconômico de que o fluxo de visitantes está migrando das capitais e dos grandes polos balneares para comunidades rurais de baixa densidade. Com pouco mais de três mil habitantes, o município demonstra que a capacidade de hospedagem não precisa ser volumétrica para gerar relevância econômica, um conceito que os gestores de receita e os controladores de hotéis urbanos precisam internalizar ao modelar suas projeções de demanda.

O ângulo back-of-house dessa transição reside na complexidade operacional de gerir propriedades em destinos de nicho. Diferente de um resort all-inclusive, onde a padronização permite previsibilidade nos custos de suprimentos e mão de obra, a operação em comunidades como Vila Flores exige uma flexibilidade logística significativa. A cadeia de suprimentos local é frágil, e a sazonalidade não segue os padrões tradicionais de férias escolares ou feriados nacionais, mas sim eventos comunitários, colheitas e celebrações religiosas específicas. Isso impõe ao gerente financeiro a necessidade de revisar as margens de contribuição por quarto, pois os custos fixos de manutenção e pessoal podem não ser diluídos por uma alta ocupação constante.

No cenário atual do setor hoteleiro brasileiro, a terminologia técnica ganha novas conotações. O RevPAR, tradicionalmente calculado pela multiplicação da taxa média diária pela taxa de ocupação, tende a se comportar de forma errática em destinos de experiência. Historicamente, a ocupação em áreas rurais do Sul do país apresentava picos curtos e intensos, seguidos de longos períodos de baixa. No ciclo pós-pandemia, porém, observa-se uma tendência de achatamento dessa curva, com um fluxo mais constante de viajantes de longa estadia, muitos dos quais buscam trabalho remoto ou retiros espirituais. Para o revenue manager, isso significa que a estratégia de precificação não pode ser estática, devendo incorporar variáveis não tradicionais, como a disponibilidade de experiências culturais locais e a sazonalidade da produção artesanal de alimentos.

A lógica da sustentabilidade como ativo financeiro

A ênfase da ONU na sustentabilidade e na preservação da identidade local tem implicações diretas na controladoria. Em propriedades localizadas em comunidades certificadas, os custos operacionais podem ser reduzidos através de parcerias locais que minimizam a logística de transporte de insumos. A produção de vinho e pães artesanais, citadas como pilares da economia local, representa uma oportunidade de verticalização da oferta gastronômica. Para o gerente financeiro, isso se traduz em uma análise mais profunda do GOPPAR, onde a receita de alimentos e bebidas, se integrada à experiência cultural, pode superar a receita de hospedagem em termos de margem bruta, desde que os custos de insumos sejam gerenciados com rigor. A utilização de indicadores como o USALI, padrão contábil da indústria hoteleira, deve ser adaptada para capturar custos específicos de preservação cultural e manutenção de estruturas históricas, que não se enquadram nas categorias tradicionais de manutenção predial.

A comparação internacional oferece um paralelo claro com o modelo de turismo rural desenvolvido na Europa, especialmente na Itália e na França, onde a certificação de vilas e a preservação do patrimônio imaterial são alavancas fiscais e de marketing. Nesses mercados, a ocupação média (ALOS) em propriedades boutique de interior é frequentemente superior à de hotéis de negócios em zonas centrais, devido à natureza prolongada das estadias. O Brasil, que historicamente concentrou seus investimentos em infraestrutura de alto padrão em orlas e capitais, começa a perceber que o capital cultural é uma forma de infraestrutura intangível que reduz o custo de aquisição de clientes. O marketing de conteúdo focado em autenticidade tem um custo por lead inferior ao de campanhas pagas em grandes portais de reserva, o que impacta positivamente o retorno sobre o investimento em marketing.

Implicações operacionais para a gestão de receitas

Para o night auditor e a equipe de controladoria, o desafio reside na integração de sistemas de reserva que muitas vezes não estão preparados para gerenciar a complexidade de pacotes de experiência. A distribuição de quartos em destinos como este não se limita à alocação de chaves, mas envolve a coordenação com guias locais, produtores de alimentos e organizadores de eventos comunitários. Isso exige um nível de comunicação interdepartamental que vai além do padrão operacional de um hotel corporativo. A dispersão da receita, que pode vir de múltiplas fontes não hoteleiras, exige uma conciliação bancária mais detalhada e uma segmentação de custos que permita identificar quais atividades geram valor real e quais são meros custos de suporte.

Os riscos associados a esse modelo são significativos. A dependência de mão de obra local, que pode estar sujeita a sazonalidades agrícolas, pode comprometer a operação hoteleira em picos de demanda. Além disso, a preservação da autenticidade é um equilíbrio delicado; a massificação do turismo pode eroder exatamente o que atrai o visitante, criando um paradoxo onde o sucesso comercial ameaça o produto central. Para o gestor financeiro, isso introduz um risco estratégico de longo prazo que deve ser ponderado nos modelos de valuation do ativo. A obsolescência do produto cultural é um risco que não aparece nas planilhas tradicionais de depreciação, mas que pode impactar a capacidade de manter taxas premium no futuro.

O futuro da demanda no interior

A observação adiante deve focar na capacidade das operadoras de adaptar seus modelos de negócio a essa nova realidade. A tendência é de que os grandes grupos hoteleiros comecem a investir em conceitos de gestão de ativos em propriedades familiares de interior, buscando alavancar a marca sem assumir os custos de capital de construção. Para o setor, a lição de Vila Flores é que a sustentabilidade não é apenas uma questão de responsabilidade social, mas uma estratégia de eficiência operacional e de diferenciação de mercado. A próxima década do turismo brasileiro será definida pela capacidade de transformar comunidades locais em destinos de classe mundial, mantendo a essência cultural que as distingue. Os controllers e revenue managers que dominarem a análise de dados em contextos de baixa densidade e alta complexidade cultural terão vantagem competitiva em um mercado que se fragmenta cada vez mais.

A transição para um modelo de turismo de interior exige uma reavaliação dos indicadores de desempenho. A ocupação isolada perde relevância quando comparada à satisfação do cliente e à fidelização, métricas que são mais difíceis de quantificar, mas essenciais para a sustentabilidade do negócio. O setor precisa desenvolver novas metodologias de precificação que reflitam o valor percebido da experiência autêntica, em vez de apenas o custo de oportunidade do quarto. Essa mudança de paradigma é o verdadeiro legado da seleção de Vila Flores para a indústria hoteleira brasileira.

Vídeo relacionado ao tema — YouTube

Fonte:g1.globo.com — ler notícia original.

Transparência editorial: reportagem produzida pela redação da The Contáveis. com apoio de ferramentas de inteligência artificial na sumarização e redação, e revisada editorialmente antes da publicação. O ângulo, a seleção de dados e o enquadramento para back-of-house hoteleiro são originais desta redação; todo material factual é atribuído à fonte primária citada acima. Encontrou um erro? Peça uma correção.

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Editor responsável · Redação

Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.

280 matérias publicadasEsta matéria · 16 de outubro de 2026