Hotelaria brasileira encara aumento de custos e complexidade com novas normas
Novas exigências sobre diárias, segurança do trabalho e jornada obrigam hotéis a rever processos, elevar investimentos e repensar margens, enquanto a retomada do turismo pressiona por experiência de alto nível.

A recente onda de regulamentações que afeta desde o cálculo das diárias até as condições de segurança nas áreas de lazer está forçando a hotelaria nacional a rever sua estrutura operacional e seus indicadores de rentabilidade. Em meio à retomada do fluxo turístico, gestores precisam equilibrar a busca por RevPAR mais alto com a necessidade de cumprir normas que podem pesar no GOPPAR e na margem de lucro.
A Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) alerta que a soma de mudanças legislativas – que antes pareciam pontuais – está gerando um aumento cumulativo de custos e de complexidade para hotéis de todos os portes. Segundo o presidente Alexandre Sampaio, alterações nas normas de segurança e saúde ocupacional, novas regras sobre jornada e escala de trabalho, além de propostas tributárias ainda em fase de discussão, elevam o custo estrutural de forma que a margem operacional pode ser comprimida, sobretudo em estabelecimentos que dependem de alta sazonalidade para impulsionar o ADR.
Para o diretor da FHORESP, Enio Miranda, as mudanças na regulamentação trabalhista trazem boas intenções, mas o excesso de normas protetivas impõe ao setor a transferência de responsabilidades que historicamente cabiam ao Estado. O resultado, segundo ele, é um cenário de fechamento de unidades e de perda gradual de postos, já que o peso financeiro das novas exigências supera a capacidade de absorção de muitos empreendimentos, sobretudo aqueles que ainda lutam para alcançar um ALOS (Average Length of Stay) competitivo.
Do outro lado da bancada, o sindicato SINTHORESP defende que a proteção ao trabalhador não é incompatível com a sustentabilidade empresarial. Em entrevista, a presidente Elisabete dos Santos Cordeiro destacou que a rotatividade alta e a dificuldade de retenção de talentos têm origem na falta de qualidade de vida oferecida ao colaborador, e que normas que garantam condições dignas podem, a longo prazo, reduzir custos de turnover e melhorar indicadores como o BAR (Bed Occupancy Rate).
Impactos operacionais e financeiros
Na prática, as novas exigências técnicas para áreas de lazer – que incluem requisitos de acessibilidade, controle de ruído e padrões de segurança contra incêndio – demandam investimentos em obras e em sistemas de monitoramento. Muitos hotéis, ainda em fase de recuperação pós‑pandemia, veem esses gastos como um entrave ao aumento de investimentos em tecnologia de revenue management, que poderia otimizar o forecast de demanda e melhorar a taxa de upsell de produtos ancilares.
A reestruturação da contabilização das diárias, agora sujeita a regras mais rígidas de tributação e de classificação de receitas, também afeta o cálculo do ADR (Average Daily Rate). Controladores precisam adaptar o PMS (Property Management System) para garantir que a contabilização siga os parâmetros da nova legislação, sob pena de inconsistências nos relatórios USALI e de possíveis autuações.
Para os night auditors, a mudança traz uma carga adicional de conferência e validação de dados ao final de cada turno. O aumento de variáveis – como a necessidade de registrar horas extras de acordo com a nova jornada e de monitorar a conformidade de procedimentos de segurança – eleva o tempo dedicado ao fechamento diário, impactando a eficiência operacional.
Em termos de competitividade, hotéis que conseguem integrar as novas normas ao seu modelo de negócio podem transformar a conformidade em diferencial. Por exemplo, a certificação de segurança pode ser utilizada como argumento de venda em canais OTA (Online Travel Agencies) e GDS (Global Distribution Systems), influenciando positivamente a decisão do viajante que busca garantias de bem‑estar.
Entretanto, a maioria das empresas ainda enfrenta desafios de capitalização. O aumento de custos fixos – com obras, treinamento de equipe e adequação de sistemas – reduz a capacidade de investir em campanhas de marketing digital ou em programas de fidelização, que são essenciais para manter o RevPAR em patamares sustentáveis.
Analistas de mercado apontam que, nos próximos doze a vinte‑quatro meses, a pressão regulatória deverá se traduzir em uma ligeira queda nos índices de GOPPAR, a menos que os hotéis adotem estratégias de eficiência, como a automação de processos de housekeeping e a revisão de contratos de suprimentos. A tendência é que os estabelecimentos mais preparados – geralmente redes com maior escala e acesso a capital – consigam amortizar os impactos mais rapidamente, enquanto hotéis independentes poderão precisar de apoio de associações setoriais para viabilizar a adequação.
O cenário, portanto, indica que a conformidade deixou de ser um mero requisito burocrático e se tornou elemento central da estratégia de gestão hoteleira. Observadores recomendam que controllers e revenue managers monitorem de perto a evolução dos indicadores de custo‑benefício das adaptações, alinhem o planejamento de investimentos ao calendário de auditorias regulatórias e mantenham um diálogo constante com sindicatos e entidades de classe para antecipar mudanças e mitigar riscos. O futuro próximo exigirá um equilíbrio delicado entre a busca por rentabilidade e o cumprimento de normas que, embora onerosas, podem garantir a perenidade do setor em um mercado cada vez mais exigente.
Mark
Editor responsável · Redação
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Editor responsável · Redação
Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.