Marcas de luxo apostam em Costalegre, a costa mexicana ainda pouco explorada
Grandes grupos hoteleiros estão direcionando investimentos bilionários para a região costeira de Costalegre, entre Puerto Vallarta e Manzanillo, apesar da falta de infraestrutura e da distância dos centros urbanos, buscando diferenciação po

A decisão de alocar centenas de milhões de dólares em hotéis de alto padrão na ainda inexplorada costa de Costalegre, no estado de Jalisco, surpreende o mercado ao romper com a lógica tradicional de investimento em destinos já consolidados. O movimento, impulsionado por marcas que priorizam exclusividade sobre escala, chega num momento em que o setor hoteleiro mexicano projeta receitas de US$ 61 bilhões em 2026, com expectativa de alcançar US$ 82 bilhões até 2031, segundo a Mordor Intelligence.
Jalisco, que abriga os pólos turísticos de Puerto Vallarta e Guadalajara, já contabiliza mais de US$ 1 bilhão em investimentos privados destinados a 38 novos projetos que deverão ser concluídos até 2028, conforme dados da Jalisco Tourism Board. Embora a maior parte desse capital esteja concentrada nas áreas urbanas e nos resorts já estabelecidos, uma parcela significativa está sendo destinada a Costalegre, uma faixa de 150 milhas que se estende ao longo do Pacífico, entre Puerto Vallarta e Manzanillo. O cenário contrasta com a tendência nacional de expansão rápida, que privilegia ciclos curtos, maior número de chaves e densidade de empreendimentos.
A região, porém, apresenta desafios estruturais que a tornam pouco atrativa para o modelo de negócios baseado em volume. O acesso se dá por estradas sinuosas que atravessam selvas e áreas rurais, exigindo cerca de três horas de viagem a partir de Puerto Vallarta. A conectividade ainda é limitada: o sinal de celular é intermitente e a disponibilidade de Wi‑Fi confiável não é garantida, enquanto o aeroporto internacional mais próximo fica ao norte, em Puerto Vallarta, e o sul conta apenas com o porto de Manzanillo, mais voltado ao comércio de contêineres que ao turismo de lazer.
Historicamente, essas limitações mantiveram Costalegre fora dos roteiros turísticos tradicionais. A única exceção notável foi o enclave privado de Careyes, fundado no final da década de 1960 pelo banqueiro italiano Gian Franco Brignone, que atraiu artistas e designers por meio de um modelo de acesso controlado e arquitetura experimental. Contudo, Careyes jamais foi concebido para expansão em massa, servindo mais como um laboratório de privacidade do que como um ponto de partida para desenvolvimento em larga escala.
Desafios que se tornam atrativos
Para os investidores de luxo, a própria dificuldade de desenvolver na região se converte em valor. Diego Gutierrez, co‑proprietário da rede Chablé Hotels, ressalta que Jalisco oferece simultaneamente “momentum e contenção”, permitindo que projetos sejam concebidos sem a pressão de sobre‑densidade que caracteriza destinos como Cancun ou Riviera Maya. A proposta de Costalegre, segundo ele, reside exatamente no que impede a especulação de curto prazo: a ausência de uma “faixa de resort” homogênea, a limitação de infraestrutura e a necessidade de um planejamento que considere prazos mais extensos.
Esse raciocínio tem atraído marcas que preferem sacrificar velocidade em troca de longevidade. O arquiteto Santiago Cuaik, responsável pelo projeto Chablé El Tezcalame, que deve abrir as portas em 2027, descreve Costalegre como um mercado onde a disponibilidade de terra, e não a demanda imediata, guia a estratégia de desenvolvimento. Essa lógica se reflete também na escolha da Six Senses, que está construindo o resort Six Senses Xala, também programado para inauguração em 2027, aninhado em cinco milhas de praia de areia branca ainda intocada.
A aposta em destinos remotos tem implicações diretas nos indicadores operacionais típicos da hotelaria. Em um cenário onde o RevPAR (Revenue per Available Room) costuma ser impulsionado por alta ocupação em áreas densas, a proposta de Costalegre busca elevar o ADR (Average Daily Rate) por meio de experiências exclusivas, tarifas premium e serviços ancilares que justifiquem preços superiores. A expectativa é que, ao limitar a densidade de quartos, os hotéis consigam manter um GOPPAR (Gross Operating Profit per Available Room) saudável, compensando a menor taxa de ocupação com margens operacionais mais robustas.
Do ponto de vista da controladoria, o longo horizonte de retorno do investimento exige modelos de forecast que incorporam variáveis de risco diferentes das usuais. A volatilidade da conectividade, a sazonalidade atípica de um destino ainda em fase de descoberta e a necessidade de investimentos em infraestrutura própria – como geração de energia renovável e sistemas de tratamento de água – são fatores que aumentam a complexidade das projeções financeiras. Contudo, a escassez de oferta pode gerar um “bar” de preço que protege o investimento contra a pressão de concorrentes que buscam rapidamente saturar o mercado.
A estratégia também abre espaço para o desenvolvimento de canais de distribuição diferenciados. Enquanto as OTAs (Online Travel Agencies) dominam o segmento de reservas em destinos massificados, hotéis em Costalegre tendem a privilegiar o GDS (Global Distribution System) e acordos diretos com viajantes de alto poder aquisitivo, reduzindo a dependência de comissões e reforçando a identidade da marca. Essa escolha, aliada ao foco em upsell de experiências – como spas, gastronomia de autor e atividades de bem‑estar – pode gerar receitas ancilares que complementam o core business.
O que observar nos próximos anos é a capacidade das marcas de transformar a adversidade em diferencial competitivo. Se o modelo de desenvolvimento em Costalegre conseguir equilibrar a necessidade de infraestrutura com a promessa de exclusividade, o destino poderá se tornar um referencial para outros players que buscam fugir da saturação dos mercados tradicionais. O sucesso dos projetos previstos para 2027 será, portanto, o termômetro que indicará se a aposta em remotos e regulados pode redefinir a estratégia de expansão da hotelaria de luxo no Brasil e na América Latina.
Mark
Editor responsável · Redação
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Editor responsável pela The Contáveis. Acompanha o cotidiano de back-of-house hoteleiro há mais de uma década — auditoria noturna, controladoria e receita — e reescreve as matérias do dia com ângulo próprio para o mercado brasileiro. Todo conteúdo publicado é revisado editorialmente antes de ir ao ar. Fale direto: marlon@govbr.org.